quinta-feira, 4 de setembro de 2014

O Bicho da Montanha


Como saber se o bicho da montanha te pegou?

Será que vc já virou um ser da montanha? Será que está ainda no processo? Como saber?
campo base do Cho Oyu

Bom, temos aqui uma série de questões que podem elucidar em que etapa vc está desse processo (que aviso desde já, não há volta desse processo! Afinal, vc conhece algum ex-ser da montanha? Não né...). Paremos de enrolação e vamos às questões.

1- vc acha um absurdo seu amigo, irmã, familiar gastar uma grana numa calça jeans de marca, mas não se importa nem um pouco em gastar mais do que isso num casaco de pena de ganso

2- achar a coisa mais linda do mundo o casaco de pena de ganso, assim como seu saco de dormir de pena

3- calçados: sonhar em ter aquela sapatilha de escalada, ou aquela bota dupla ou tripla; e qdo finalmente consegue, querer mostrar pra todo mundo (e ninguém dá a menor bola, lógico)

4- equipos: achar a coisa mais fantástica sua corda (é a melhor, mais bonita, etcetcetc), suas costuras, ice axe, mochila, roupas de montanha, head lamp. Além disso, ficar a par das últimas novidades tecnológicas para as roupas e equipos

5- adorar contar para as outras pessoas suas aventuras, principalmente as roubadas. Qdo tem alguém de montanha com vc, é um deleite... cada um contando uma pior que a outra. Qdo é para pessoas normais... eles te olham com aquela cara de dó...
Serra da Mantiqueira

6- ficar ofendidíssimo qdo te perguntam: vc faz rapel????

7- qdo costura não é o que a costureira faz, qdo io-io não é o brinquedo redondinho com cordinha, qdo sapatilha não é de ballet, qdo mala é mala e mochila é outra coisa, tenda é tenda e barraca é outra coisa, cadeirinha não é para sentar, aclimatação não tem nada a ver com ar condicionado, agarra tb não é o que vc está pensando...

8- qdo vc sabe o que é diamox, dexa, jumar (não é Gilmar escrito errado...), cipro, azitro, campus board, finger board, crampon, chapeleta, magnésio, climb on, oxímetro, altímetro, suunto, crashpad

9- qdo vc não dá dica – vc dá um beta, qdo “tô na minha” não significa “tô tranquilo”, “chupa!” significa recolher a corda, “lance psicológico” não tem nada a ver com terapia, ogro não é o Shrek

Cuscuzeiro
10- gastar uma grana numa expedição e continuar com seu carrinho de sempre

11- ficar com as mão suando ao ver um vídeo de escalada animaaaaaal, além de fazer comentários sobre a técnica do escalador. Ficar gritando feito bobo k’mooooon!!!! pro vídeo...

12- achar genial quem inventou o pee bootle, o saco de dormir tipo múmia, o hand warmer, o goretex, o thermarest, o canivete suíço (aliás, ser apegado ao seu canivete tanto qto à sua corda), fogareiro multifuel



13- perceber que seus conceitos sobre higiene estão mudando... melhor não entrar em detalhes aqui...

14- não ter o menor problema em falar sobre suas necessidades fisiológicas com parceiros de escalada

15- não dar muita bola pra refrigerantes qdo está na cidade, mas achar simplesmente DIVINA aquela coca-cola que apareceu no acampamento não se sabe vinda de onde. E tomar de um gole só

16- começar a comparar o peso da sua mochila com a dos outros (óooo, o cara tá forte!) e fazer competição pra ver quem está com a saturação mais alta (mesmo qdo o guia diz pra não fazer isso)

escalada do Elbrus, Rússia
17- ficar muuuuuito, mas muuuuuito P da vida qdo não consegue fazer aquela via ou aquela montanha. Colocar a respectiva na sua lista, logo em cima, pra resolver logo essa pendenga. Ficar planejando qdo vai quitar essa dívida...

18- vc não perde uma noite de sono pra ir na balada, mas fica sem dormir pra ir escalar

19- as únicas marcas de roupa que vc conhece são roupas e equipos de escalada

20- qdo finalmente sua família e amigos páram de achar vc estranho e simplesmente dizem: ah, ele (a) é assim mesmo... gosta dessas coisas...

Se vc se identificou com pelo menos 15 das questões acima, já era... vc já é um bicho da montanha. Menos que isso, vc está no processo... qto mais questões vc se identificou, mais está próximo a entrar para o clube. Mas se vc não se identificou com nada disso e achou tudo um absurdo, yeah! Fique tranquilo, pois o bicho da montanha ainda não te mordeu...
Ainda...




quarta-feira, 20 de agosto de 2014

MUDAR, SEMPRE



Se eu for pensar em uma palavra que possa representar minha vida, essa palavra é MUDANÇA. Hoje olho para trás e vejo o quanto mudei, seja fisicamente ou pessoalmente. Quem me conhece mais de perto sabe que parei de contar as vezes que mudei de casa quando cheguei na 25°... fora a época que, trabalhando para a Morgado Expedições, simplesmente não tive casa. Já trabalhei como engenheira, instrutora de Yoga, já tive academia de escalada. Pedalei, corri, nadei, joguei vôlei, polo aquático, escalei rocha e montanha.
O que me empurrava para essas mudanças todas era sempre uma certa insatisfação: sempre acreditei que temos que trabalhar no que nos satisfaça a alma e que a vida tem inúmeras possibilidades. E eu sempre busquei a melhor possível. Mas, o incerto faz parte, e quando acreditei que tinha “estabilizado”, trabalhando como guia de trekking e de montanha, veio mais uma vez o furacão da mudança e fez mudar meus planos novamente.

Questões mais sutis que sempre vem com uma mudança são mais difíceis de se ver. Assim, somente depois da escalada do Cho Oyu (que teve um enorme impacto na minha vida) é que os rumos começaram a ficar mais claros. Há muitos anos atrás tive uma idéia de trabalhar com educação ao ar livre e de repente esse projeto voltou à minha mente. Em 2008, quando comecei a pensar nisso, não sabia como o projeto poderia sair do papel e virar algo concreto. Creio de precisei de todos esses anos e todas essas vivências trabalhando como guia nas montanhas para que o quebra cabeça se encaixasse e fizesse sentido.
Procurei saber mais sobre educação ao ar livre e pessoas, do nada, apareciam para me dar essas informações. Acabei sabendo de um curso da Outward Bound Brasil, o FEAL (Fundamentos de Educação ao Ar Livre) e decidi que iria fazê-lo. E assim foi. No dia 15 de julho, iniciei mais uma jornada onde não sabia bem o que iria acontecer.

Logo de cara conheci o Emerson, que me deu carona de São Paulo até Itanhandu, o ponto de encontro. Depois de 5 minutos de conversa deu pra perceber que tínhamos várias coisas em comum, mas principalmente gostar da vida ao ar livre... fora a engenharia... rs. Essa sensação aconteceu com todos os participantes... todos nós tínhamos esse “algo” em comum. Me senti novamente em casa.
O curso tinha o formato de expedição. Seriam 15 dias de travessia na Serra da Mantiqueira, onde iríamos carregar tudo (tivemos apenas um reabastecimento de comida). Éramos 8 alunos e 3 instrutores. Eu sabia que a parte física não seria grande problema, já que estou acostumada a carregar peso, andar muito e acampar. E assim foi...
Mas o que eu não esperava eram as mudanças internas. 

Eu estava como aluna, e não como guia. Eu não tinha controle ou decisão sobre várias questões que normalmente tenho, nas expedições que organizo. Todos tinham que trabalhar em conjunto, uma verdadeira equipe no sentido mais profundo dessa palavra. E cada um de nós teve que lidar com pessoas diferentes, com lideranças diferentes. E tudo de maneira democrática. Foi um exercício enorme de flexibilização, tolerância, de aceitação das diferenças, de empatia e compaixão. Mas tudo isso não aconteceu de um momento para outro... Foi acontecendo, ao longo dos dias e das roubadas.

Logo no começo aprendemos sobre orientação e navegação. No começo os instrutores nos acompanhavam mais de perto. Mas eis que no quarto dia, uma série de erros na navegação fez com que nos perdêssemos. Sabíamos que estávamos no rumo certo, mas... cadê a trilha???? Estava escurecendo, esfriando. O stress aumentando... alguns cansados, outros nem tanto. Cada um tinha uma opinião, às vezes todos queriam falar ao mesmo tempo. Alternamos a frente, tentamos varar mato. 

E nada. Pior, os instrutores estavam lá juntos na roubada e não davam nenhuma dica de onde estava a trilha! Até esse dia, eu estava naquela
“o que estou fazendo aqui”, pois essa organização do “tudo pelo coletivo” estava me deixando maluca. Estava considerando seriamente ir embora quando o carro do reabastecimento chegasse. Mas funciono bem sob pressão... e esse dia do “perdidos na selva” foi fundamental para que eu ficasse.
Conseguimos sair da roubada quando percebemos que nem sempre temos que seguir exatamente um azimute... às vezes, seguir pela direção predominante da trilha é melhor. Ainda mais a noite, sem referências. Às vezes é preciso inventar... abrimos um leque de cinco pessoas, num campo aberto, para ver se achávamos a trilha. 

Às vezes é preciso ter alguém tomando decisões de forma autocrática e mais “mandona”, e às vezes também é preciso ouvir os outros. Somando tudo isso conseguimos chegar numa estradinha, que não conseguimos a princípio identificar. Mas a Olívia se ligou, e finalmente sabíamos exatamente onde estávamos. Às 9:30 h da noite chegamos. Alívio misturado com cansaço... montamos acampamento e nossos instrutores Helder, Fabi e Moaci fizeram nosso jantar nesse dia. Apesar de simples, foi um banquete! Me lembro do sopão com purê de batata para ficar mais grossinho e do chocolate quente com um pouco de curau em pó. Só quem passa por perrengues vai me entender... rs.
No dia seguinte eu estava exausta, mentalmente. Precisava ficar sozinha. E fiquei. Deixei minha mente processar os acontecimentos... e percebi o quanto eu estava sendo dura e inflexível ao longo de todos os dias. O quanto eu estava me isolando e não me doando ao grupo, como deveria ser. Era meu dia de dar aula (cada um deu uma aula, assunto a escolher) e dei uma aula de Yoga. Foi quando consegui me conectar com o lugar e com cada um. Decidi ficar, definitivamente, e sair do meu modus operandi costumeiro. Dei o passo para além da minha zona de conforto comportamental. 
A partir desse ponto, abri minha mente para todos os acontecimentos e experiências. Pude aceitar de coração todas as vezes que o Rodrigo falava em “compartilhar” (no começo eu não entendia, para que compartilhar tanto???), aceitar as diferenças de organização e decisões (Thais, Olívia e Larissa), as diferentes possibilidades e idéias originais (Tomás), o bom humor logo de manhã (Bianca) e estreitar mais a amizade com quem tive afinidade (Emerson). Pude também entender o papel de educador, tão diferente de guia e de professor.
Voltar de uma expedição sempre é difícil. 


Ter que encarar a realidade, não ter os amigos da montanha por perto e entrar nessa vida moderna complicada é um esforço. Voltei diferente, com certeza. Sinto que deixei para trás uma armadura que me mantinha afastada das pessoas. Me sinto mais paciente e compassiva, e espero que mais flexível e tolerante. Senti na pele o que é uma atividade experiencial, e rebobinando a fita de todas as minhas experiências na montanha consegui extrair delas muito mais aprendizados, e mais profundos. Mas sei que ainda há muito mais a aprender...
Mais uma vez mudei. E resolvi ficar em Botucatu, minha terrinha, para trabalhar com educação ao ar livre com adolescentes. Voltei com um programa pronto na minha cabeça. Voltei com mais certeza no meu caminho... e que seja como educadora.
Agradeço de coração à OBB, por compartilhar de sua filosofia com todos aqueles que tem sede de aprendizados. Agradeço aos instrutores Helder, Fabi e Moaci S2 pelos ensinamentos e paciência. E a cada um dos novos “melhores amigos de infância” que tive o prazer de conhecer, de compartilhar essa experiência. Vocês me ajudaram a crescer.

sexta-feira, 28 de março de 2014

Mal de Altitude, HAPE, HACE


MAL DE ALTITUDE

O mal da montanha, também conhecido como mal de altitude ou AMS (Altitude Mountain Sickness), é uma condição patológica relacionada com os efeitos da altitude em humanos, causada por uma baixa taxa de oxigênio. Ocorre normalmente acima dos 2400 metros. Muitas vezes as pessoas não levam isso a sério, quando planejam ir em uma escalada ou mesmo caminhada em altitude. Mas é um assunto extremamente importante e quanto mais informações sobre isso, melhor.

É difícil determinar quem será afetado pelo mal de montanha, uma vez que não há fatores específicos relacionados a quem vai sofrer da doença. Pessoas bem condicionadas fisicamente podem sofrer os sintomas, assim como pessoas não tão bem preparadas. Contudo, a grande maioria das pessoas é capaz de subir até aos 2400 m sem dificuldade.

Vamos entender melhor a questão do “ar rarefeito”. A porcentagem de oxigênio no ar é de 21%, e permanece praticamente inalterada até os 21.000 m. No entanto, é o número de moléculas de oxigênio, por determinado volume, que cai com aumentos de altitude – isto é, o ar é menos denso. Para exemplificar: vamos supor que na inspiração enchemos os pulmões com o volume de 1 litro de ar. No nível do mar ou em altitude, encheremos os pulmões com esse mesmo volume, 1 litro. Mas na altitude, como o ar é menos denso, o número de moléculas de O2 é menor para aquele volume de 1 litro de ar. Assim, teremos menor disponibilidade de moléculas de O2 nos pulmões... Consequentemente, a quantidade disponível de oxigênio para manter a agilidade mental e física diminui.

Os sintomas do mal de altitude incluem fadiga, dores de cabeça, enjôo, tonturas e distúrbios do sono. Aumento na frequência cardíaca e frequência respiratória é uma adaptação normal de nosso corpo ao aumento de altitude, e não deve ser relacionado, de modo geral, com o AMS.
Subida lenta no Aconcagua

Alguns fatores podem contribuir para o AMS. A desidratação é um desses fatores. Em altitudes elevadas, nosso corpo perde muita água e uma das principais preocupações do montanhista é a ingestão de líquidos. Em média, tomamos mais de 4 litros de líquidos num dia normal de escalada em montanha. A taxa de subida, altitude atingida, intensidade da atividade física em altitude elevada, bem como a susceptibilidade individual, são outros fatores importantes a serem considerados.

Todos já devem ter ouvido falar sobre aclimatação... É aqui que entra a taxa de subida, que deve ser considerada quando vc faz o planejamento logístico da escalada de uma montanha. A não ser em casos extremos, deve-se seguir a regrinha: climb high, sleep low (suba alto, durma baixo). Numa boa logística de aclimatação, considera-se subir no máximo 600 m (desnível vertical) no dia. Nessa nova altitude, deve-se permanecer ao menos duas noites para que seu corpo se adapte. Isso não significa ficar na barraca o dia seguinte inteiro, mas sim subir um pouco mais, o que chamamos de “caminhada de aclimatação”, e voltar a dormir na altitude alcançada. Assim, por exemplo, vc chegou a 3.600 m. No dia seguinte, se estiver se sentindo bem, é recomendável uma caminhada onde alcance uma altitude um pouco maior, por exemplo 3.900 m. Mas deve dormir novamente a 3.600m. Por isso é que se diz que a doença das alturas geralmente ocorre após uma subida rápida... é quando não se levou em consideração a aclimatação e o corpo não teve esse tempo de adaptação à nova altitude.
Lisete com "aquela" dor de cabeça

Na maioria destes casos, os sintomas são temporários e normalmente diminuem com a adaptação à altitude. Os sintomas geralmente manifestam-se de seis a dez horas após a subida (quando vc chegou a uma nova altitude) e, geralmente, desaparecem em um ou dois dias. Portanto, se alguém apresentar os sintomas, essa pessoa não deve ganhar altitude. Deve sim permanecer na mesma altitude até os sintomas desaparecerem. Se os sintomas se agravarem (dor de cabeça cada vez mais intensa, vômito, perda do equilíbrio), essa pessoa deve ser levada para uma altitude mais baixa o mais rápido possível.

O mal de montanha pode evoluir para um quadro bastante grave, o edema pulmonar de altitude (HAPE ou High Altitude Pulmonary Edema) ou um edema cerebral de altitude (HACE ou High Altitude Cerebral Edema), ambos potencialmente fatais. Isso normalmente acontece quando uma pessoa com os sintomas do AMS continua a ganhar altitude ou quando os sintomas do AMS se agravam e a pessoa não desce imediatamente.

No edema cerebral em altitude há o acúmulo fluidos nessa região, e quase sempre se inicia a partir do Mal de Altitude agudo. Sintomas normalmente inclui aqueles do AMS (dores fortes de cabeça, náusea, vômito, insônia, fraqueza, perda de equilíbrio…) além de perda da coordenação e diminuição do nível de consciência incluindo desorientação, perda da memória, alucinações, comportamentos irracionais. Os perigos do HACE são acentuados pela tendência das vítimas em negar ter qualquer problema. Elas geralmente não recebem tratamento até realmente colapsar ou ter sintomas tão sérios que obriguem outros a intervir.

O HAPE também se inicia, geralmente, a partir do AMS. Há o acúmulo de líquido nos pulmões. Os sintomas principais são: dificuldade em respirar em descanso, tosse (pode ter secreção), muita fadiga.

Tanto o HAPE quanto o HACE pode progredir rapidamente e muitas vezes é fatal, se não houver nenhuma atitude no sentido de reverter essas doenças.

Subir lentamente é a melhor maneira de evitar a doença das alturas. Para isso, é preciso um bom planejamento para sua escalada ou trekking em altitude, considerando dias de descanso para a aclimatação.
Uma boa aclimatação vai ajudar vc a chegar no cume!
Subida do Mont Blanc

A administração de oxigênio e medicamentos podem temporariamente aliviar os sintomas e facilitar a descida da vítima, que é absolutamente necessária por ser a única ação capaz de reverter o HACE ou HAPE. Bolsas hiperbáricas são muito eficientes em conjunto com medicamentos, mas não revertem o quadro dessas doenças. São mais uma ferramenta para aliviar os sintomas da doença e facilitar a descida da vítima. O único tratamento confiável é: DESCER!



segunda-feira, 28 de outubro de 2013

A escalada da Deusa Turquesa


ESCALANDO O CHO OYU – A DEUSA TURQUESA


“Um dia é preciso parar de sonhar, e partir”
Amyr Klink

Há muitos e muitos anos, li um livro – All 14 eighthousanders – de Reinhold Messner, sobre sua escalada de todas as montanhas com mais de 8.000m. Me lembro de ter ficado deslumbrada com aquele mundo de neve, gelo, botas, crampons e falta de oxigênio. Ao mesmo tempo, achei que aquilo era um sonho distante... na época, eu morava em Analândia, interior de São Paulo e minha realidade era terminar meu mestrado e escalar em rocha, no Cuscuzeiro.
Creio que a escalada do Cho Oyu começou lá, naquele ponto da minha vida. Não que eu soubesse que um dia escalaria uma dessas montanhas, mas creio que o sonho, ainda que aparentemente impossível, havia se criado em minha mente.

A APROXIMAÇÃO

A escalada do Cho Oyu tem algumas peculiaridades. Primeiro, todos os acampamentos são muito altos. Ter o acampamento base a 5.700m é difícil! Nessa altitude (mais alto que o Mt. Elbrus na Rússia, para se ter uma idéia...) nosso corpo nunca descansa e nunca estamos 100% aclimatados. Outra peculiaridade é que vamos de carro por um longo
Tingri com Cho Oyu ao fundo
trecho, de Katmandu no Nepal até o chamado Acampamento Base Chinês (no Tibet / China). Como ganhamos altitude muito rápido, temos que parar no caminho em algumas cidades tibetanas (ou chinesas) e passar nelas alguns dias, para fazer caminhadas de aclimatação. A partir do Acampamento Base Chinês, onde passamos 4 noites (mais caminhadas de aclimatação), seguimos finalmente caminhando rumo ao Acampamento Base do Cho Oyu. Paramos num acampamento intermediário e somente no dia seguinte é que chegamos no Acampamento Base do Cho Oyu, a 5.700m, que seria nossa “casa” no próximo mês.

A caminhada até o Acampamento Base do Cho Oyu começa por uma estrada de terra e depois de algumas horas finalmente entramos numa trilha em meio à moraina lateral do glaciar que desce das montanhas. Sinto finalmente a sensação de estar “na montanha”. A paisagem muda radicalmente, os picos estão cada vez mais próximos, podemos finalmente ver o glaciar e o famoso Nangpa La – o passo por onde os mercadores tibetanos seguiam com destino ao Nepal. Hoje em dia essa passagem é proibida pelo governo chinês.

Quando chegamos, toda a estrutura de nosso acampamento já está montada: cozinha, barracas, barraca refeitório, barracas banheiro, barraca chuveiro. Somos ao todo 11 escaladores, 6 sherpas, um cozinheiro, um assistente de cozinha e 2 guias.

ACAMPAMENTO BASE

Na escalada de alta montanha, passamos muito tempo no acampamento base. Isso porque, no geral, para cada dia que passamos na montanha temos que voltar e descansar pelo menos o mesmo número de dias no base.
Campo base

O campo base acaba sendo nossa “casa” na montanha. É lá onde conseguimos dormir melhor, comer “comida de verdade” (e não só snacks e comida liofilizada), onde conseguimos tomar um banho, lavar roupas e outras coisas cotidianas.

Lá, os dias seguem mais preguiçosos. Apesar de sempre acordarmos cedo, em geral o dia segue relax. Sempre arrumamos algo pra fazer... alguns preferem ficar na barraca lendo ou assistindo um filme (no computador, ipad, iphone...), outros vão fazer visitas às outras expedições que tb estão no campo base, outros jogam baralho. Cada um tem a sua barraca, o que é um luxo!

A ESCALADA

A escalada começa com o Puja, a cerimônia de oferenda aos deuses das montanhas.
Puja
Ninguém sobe a montanha antes do Puja, principalmente os sherpas. Nosso Puja foi num dia de muito frio e neve e demorou aproximadamente 3 horas. Eram 15 divindades e por isso demorou tanto. No fim, todos recebem um punhado de tsampa, um tipo de farinha, que jogamos uns nos outros... ficamos com os cabelos e rostos brancos, o que simboliza a chegada da idade... e desejamos “long life – vida longa” uns aos outros. Todos ficam de certa forma emocionados. Para mim, que sempre ouvira falar no Puja, fazer parte dessa cerimônia foi bastante especial.

A escalada é feita em ciclos. Para o Cho Oyu, tivemos 2 ciclos de aclimatação e depois o ciclo do cume.

No primeiro ciclo, o objetivo é chegar no campo 1, a 6.400m. O caminho é pela moraina, um misto de pedra e gelo. Depois de algumas horas, chegamos na parte final com uma inclinação bem forte para chegar no campo 1.
Caminho pela moraina

Eu já estava andando devagar pois senti que minha energia não estava 100%. Mas estava num ritmo razoável. Fiz a besteira de não comer nem beber o suficiente durante a caminhada pelas pedras... mesmo com experiência em montanha e sabendo que eu não podia fazer isso. A falta de oxigênio tira muito o apetite e a vontade de beber água. Assim, era preciso lembrar de comer e beber, e forçar um tanto a barra para isso. Mas acabei não fazendo, já que não recebi os “sinais” do corpo (sede e fome) e acabei deixando passar. Quando comecei a andar nessa parte mais inclinada, comecei a me sentir extremamente cansada. Meu ritmo diminuiu muito e um dos guias, Peter, acabou ficando comigo para trás. Da metade da subida para cima, já tinha neve e acabamos colocando botas, crampons e usando o ice axe. Me lembro de estar concentrada totalmente nos movimentos e na minha respiração – e para cada passo precisava respirar umas 4 vezes. Só pensava que estava perto e que tinha que chegar no campo 1. Não pensava em mais nada. Apenas sabia que esse, até então, esse estava sendo o dia mais duro em minha vida de escaladora.

Quando finalmente cheguei, sentei na neve sem nem tirar a mochila. Minha companheira de barraca, a alemã Heidi (muito forte e experiente, já havia escalado o Everest em 2012) percebeu meu estado e agilizou várias coisas para mim: pegou minha mochila e jogou dentro da barraca, me ajudou a desempacotar várias coisas, me deu algo para comer e encheu meu thermarest (colchonete inflável). Assim, pude entrar na barraca e finalmente descansar. Comecei a me hidratar e a comer o máximo que eu podia, para tentar repor minhas energias.
Durante a noite tive uma dor de cabeça muito forte, um dos sintomas do Mal de Altitude. Isso pode acontecer e não é um grande problema, desde que o quadro permaneça dessa forma. Apenas o desconforto é muito grande... Mas no dia seguinte já estava me sentindo bem e fizemos uma caminhada de aclimatação. Fomos até a base do ice cliff, uma parede vertical de neve e gelo que fica já na subida para o campo 2. Fomos até onde as cordas já haviam sido colocadas pelos sherpas. Ficamos lá por um tempo e voltamos ao campo 1 para a segunda noite nessa altitude. Dormi bem e no dia seguinte voltamos mais uma vez ao nosso acampamento base.

Chegamos lá, felizes (afinal para nós era como se fosse um hotel 5 estrelas...) e de repente percebi uma movimentação estranha, principalmente entre os sherpas que estavam lá e Mike, o guia principal. Havia acontecido uma avalanche, no trecho do ice cliff, onde os sherpas estavam trabalhando na fixação da cordas. As informações não chegavam com precisão, o que deixava todos bastante apreensivos... não havia resposta pelo rádio. Depois de uns 30 minutos, conseguimos finalmente ter alguma notícia concreta: um dos sherpas da Adventure Consultants estava guiando a cordada e uma placa de neve se descolou, vindo para cima dele. O nosso sherpa, Karma Rita, estava dando segurança. O primeiro levou uma pancada mais séria na cabeça e Karma Rita teve um corte feio no dedo, e machucou o joelho e a cabeça – apenas superficialmente. Foi um corre-corre dos sherpas para subir ao campo 1 naquela tarde, para trazer os dois machucados. Esses seres humanos fora do comum conseguem subir em 1h20min o que nós, meros mortais, fazemos em 4 ou 5 horas. Assim, no começo da noite vimos Karma Rita chegar no acampamento. Ele estava com uma expressão de medo no rosto, com a mão toda enfaixada e muitos ajudando ele a andar. Todos entraram na barraca depósito com Mike e Peter e lá ficaram. Peter, como é enfermeiro, cuidou dos ferimentos e assim o sherpa não precisou voltar a Katmandu. Depois recebemos a notícia de que o sherpa da Adventure Consultants, que seguiu para Katmandu para os devidos cuidados médicos, estava bem. Respiramos aliviados por saber que, no fim, tudo havia acabado bem.
A equipe: escaladores e guias

Passamos três dias no acampamento base, para recarregar nossas energias de novo. O cozinheiro da expedição , Kaji, era ótimo! Conseguia preparar desde pizza a dal bhat (prato típico nepalês: arroz, lentilhas e legumes no curry) maravilhosamente bem. Assim, sempre que voltamos ao base, aproveitamos para comer bem. Nos campos altos, é praticamente impossível repor toda a energia gasta durante a escalada. Primeiro porque o gasto calórico é muito alto, e depois porque realmente não temos apetite. Comer é sempre uma preocupação lá em cima, mas conseguir comer é que é o problema... No base também dormimos bem melhor, o que é fundamental para o corpo. Nesses dias no base, uma das atividades foi fazer um teste com as máscaras de oxigênio e aprendemos a lidar com os cilindros e reguladores.

O tempo estava bom, o que nos permitiu entrar na montanha para o segundo ciclo de aclimatação. O objetivo era passar uma noite no campo 1, uma noite do campo 2 (7.200m), voltar a dormir no 1 e descer ao campo base. Desta forma, estaríamos aclimatados a essa altitude e preparados para o ciclo do cume.
Seguindo para C2. C1 ao fundo

Havia, nas previsões de tempo, uma tempestade forte se aproximando. Sabíamos que não chegaria enquanto durasse este segundo ciclo de aclimatação, mas a previsão era que viria logo depois desse ciclo. Por essa razão, algumas expedições optaram por fazer o ataque ao cume já neste segundo ciclo. Já nossos guias decidiram fazer como o planejado – segundo ciclo e só depois o ciclo de cume.

Assim, no dia 24 de setembro seguimos novamente rumo à montanha. A caminhada ao campo 1, pela moraina, era sempre o pior trecho, o mais chato de passar. Mas fomos bem mais rápidos que no ciclo anterior e em aproximadamente 4 horas estávamos no campo 1. Me sentia super bem e tive uma boa noite de sono. No outro dia, seguimos ao campo 2. Esse trecho da escalada era um dos mais aguardados, pois sabíamos que havia uma parte mais difícil devido à inclinação quase vertical, o chamado ice cliff. Foi ai que havia acontecido a avalanche, alguns dias antes, quando os sherpas fixavam as cordas. Mas, no fim, eles abriram a rota de subida contornando pelo outro lado e evitando assim o trecho mais suscetível aos deslizamentos.

Toda a subida ao campo 2 teve uma inclinação mais pesada do que esperávamos. Saindo do campo 1 a subida já ficava mais forte, até finalmente chegarmos no ice cliff. Para mim,
Lisete no ice cliff
apesar da dificuldade e do cansaço (a falta de oxigênio nessa altitude é grande!), foi uma das partes mais divertidas da escalada. Passar pelo ice cliff exigiu mais técnica, além de mais energia. Mas não era um trecho tão longo, e logo depois havia uma parte mais plana onde paramos para descansar. Na sequência, havia uma longa subida, com uma inclinação razoável, que para mim foi mais extenuante que o próprio ice cliff. Fui devagar e finalmente cheguei no campo 2, que alívio! Havia batido meu record de altitude, que era 6.800m (escalando o Aconcagua)! Estava a 7.200! Era o record do Agnaldo também... nos demos os parabéns e já entramos nas barracas, para começar as funções “domésticas”. O primeiro passo é pegar neve, em grandes sacos. Depois, acender o fogareiro e começar a derreter a neve para termos água. Essa função demora praticamente o tempo todo, até a hora de dormir. Isso porque, enquanto derretemos a neve, também estamos consumindo a água que acabamos de conseguir (uma das grandes preocupações é a hidratação). Além disso, usamos essa água para preparar nosso jantar e também já deixamos as garrafas cheias para que, na manhã seguinte, não seja preciso gastar tanto tempo nessa atividade.
Phebe, Lisete e Heidi no C2

Nessa subida ao campo 2, praticamente metade de nosso grupo não conseguiu chegar. Como estavam mais lentos, foram até o ice cliff e acabaram voltando ao campo 1 para dormir. No dia seguinte, quando estávamos voltando ao campo 1, encontramos alguns no caminho e acabamos descendo juntos para mais uma noite no campo 1. Segundo nossos guias, essas pessoas tinham ainda condições de fazer o cume, sem problemas. Claro, o ideal era ter chegado no campo 2 para dormir, mas não chegar lá não era um impedimento para tentar o cume. Fiquei mais tranquila com essa notícia... numa expedição tão longa, acabamos criando laços com todos do grupo e torcemos para que todos consigam chegar no cume. Apesar de saber que  isso é difícil de acontecer...

Na descida ao campo 1, me senti extremamente cansada. As pernas não obedeciam muito as ordens do cérebro e dobravam de cansaço, o que acabava me fazendo cair sentada várias vezes... Encontrei o Agnaldo, que também estava mais lento que de costume e comentei isso com ele. E ele estava na mesma situação... muito cansaço! Cheguei no campo 1 aliviada, mas ao mesmo tempo preocupada: se estava me sentindo cansada aqui, será que teria condições de chegar no cume? Conversei com Mike e com um de nossos sherpas sobre esse cansaço, e os dois me disseram a mesma coisa: muitas vezes a noite no campo 2, por ser muito alta, não permite que nosso corpo descanse o suficiente. Assim, o resultado é esse cansaço acumulado no dia seguinte. Já a noite no campo 1 foi tranquila e no dia seguinte já me sentia bem melhor. Descemos novamente para o base. Eu estava novamente feliz por poder comer e dormir bem, mais uma vez.

Ficamos 4 dias no base, para descanso. Nos dois primeiros dias eu não tinha vontade de fazer nada, apenas comer e dormir. Acho que todos estavam assim, pois o acampamento estava mais silencioso e tranquilo que o normal. A partir do terceiro dia já estava na rotina de sempre: café da manhã, bate papo no sol, almoço, jogar cartas, descansar na barraca antes do jantar, jantar e dormir. A previsão do tempo ainda falava sobre a tempestade, mas o tempo continuava firme na montanha. Os guias e sherpas decidiram o dia de nossa subida para o ciclo do cume: dia 28 de setembro. Confesso que tive aquele frio na barriga... finalmente chegava esse momento que eu havia esperado tanto! É um misto de apreensão, ansiedade e um certo medo, misturado com a vontade de ir e fazer uma boa escalada. Me lembro que, numa noite após o jantar, o céu estava completamente limpo e dava para ver milhões de estrelas. Fiquei lá olhando o céu, num daqueles momentos mágicos em que se consegue simplesmente estar presente, no momento presente. E me veio à cabeça tudo o que me havia trazido para essa escalada. O meu treinamento, todas as escaladas anteriores, tudo... tive uma certa “certeza” de que tudo estava bem, que tudo daria certo, independentemente dos resultados. E fui dormir tranquila...
Jerri, Brenda, Mark, Lisete

No dia 28, seguimos finalmente para o ciclo de cume. O cronograma era: dormir no campo 1, dormir no campo 2, seguir para o campo 3 e chegar lá em torno de 4pm, descansar já usando oxigênio, levantar às 10:30pm para começar o ataque ao cume à meia-noite.

Durante a caminhada ao campo 1, numa das paradas de descanso, o Lui nos disse que iria desistir. Eu e Agnaldo levamos um susto e tentamos conversar, para que ele continuasse na escalada. Mas vimos que ele estava decidido, não tinha muito o que falar. Eu estava super emocionada e triste, vi que os dois também estavam... eu já havia imaginado o trio brasileiro no cume, e agora isso não iria mais acontecer! Eu sabia, também, que esta escalada era importante para ele... fiquei muito, muito chateada. O Lui foi conversar com os guias e avisar de sua desistência. Não tinha nada que eu pudesse fazer, apenas desejar a ele um bom retorno. Assim, fomos em direções opostas... ele voltou dali mesmo ao campo base e nós começamos a subir a parte final, para chegar ao campo 1. Foi um grande esforço me focar novamente na montanha e na escalada...

Heidi, Lisete e Brenda no caminho para C2
No campo 1, nessa noite, tive uma forte dor de cabeça. Foi um tanto surpreendente, já que teoricamente eu já estava aclimatada a essa altitude. Mas enfim, a lógica não funciona bem na montanha. Acabei acordando cansada mas segui ao campo 2. Me senti muito mais cansada que no segundo ciclo e comecei a ficar realmente preocupada. É inevitável surgir a dúvida: será que vou dar conta??? Mas cheguei bem no campo 2. Começamos as funções de sempre, derreter a neve, jantar, descansar. Durante a noite, novamente fortes dores de cabeça. Eu não estava acreditando... meu estoque de analgésicos já estava quase acabando! Claro, no dia seguinte eu estava me sentindo super fraca, cansada. Estava triste, pois achei que eu não iria conseguir chegar no campo 3 e muito menos no cume. O Agnaldo apareceu na minha barraca, conversamos. Depois o Mike veio conversar, e me perguntou: vc acha que consegue ir para o campo 3? Fiquei com medo de que ele pudesse me cortar do ataque ao cume, que ele me dissesse que eu teria que descer. Respondi com a maior firmeza que pude naquela hora, que sim. Ele respondeu que, caso eu não me sentisse bem e precisasse voltar, não haveria problema. Isso eu sabia... o que eu não sabia era se teria condições de fazer o ataque ao cume ou não... Pedi ao Mike para sair um pouco depois que o grupo, ele concordou. O Phunuru, nosso sardar (chefe dos sherpas), iria seguir comigo.

Terminei de montar a mochila e finalmente começamos a caminhar. Eu estava com a energia super baixa e segui bem devagar. Podia ver o grupo andando na frente, mas não estava preocupada em alcançá-lo. Só me concentrava nos passos e na respiração: um passo, 3 respiradas. Apesar de ser uma distância curta e pouco ganho de altitude do campo 2 ao 3, a inclinação é pesada. Além disso, estar a mais de 7.000m já é um esforço enorme para o corpo. Eu ia devagar para poupar minha energia... não queria chegar exausta no campo 3, pois isso definitivamente poderia me custar o cume.

Mais ou menos no meio do caminho, perguntei ao Phunuru quanto tempo faltava para chegarmos. Ele pensou e disse: 3 horas e meia. Já era 2 da tarde, o que significada chegar no campo 3 quase 6pm!!! Isso seria tarde demais, já que eu teria muito pouco tempo para descanso... Comecei a avaliar friamente minhas condições, que não eram nada boas. Percebi que não iria valer a pena e o esforço de fazer o ataque ao cume, pois eu não teria a menor condição de conseguir. Quando eu ia falar ao Phunuru que iria desistir, me deu um “click” difícil de explicar... uma mistura de raiva comigo mesma e da situação, e aquela sensação do “não vou desistir agora”. Pensei comigo “vou chegar no campo 3 nem que seja arrastada, e não vou demorar 3 horas e meia. Posso não chegar no cume, mas vou chegar no campo 3”. Com isso na cabeça, comecei a andar bem mais rápido do que estava andando até então. Claro, fiquei mais ofegante, mas consegui colocar um ritmo na subida e fui. Finalmente, às 4:30h cheguei no campo 3! Eu não conseguia acreditar, nem pensar direito... Vi o Mike andando na minha direção e me dando os parabéns por ter conseguido.
Chegando no C3
O Agnaldo começou a gritar da sua barraca: “cara, vc conseguiu, que animal!!!!”. Fiquei feliz comigo mesma... Entrei na minha barraca (que iria dividir com Matt e Marc) e já coloquei a máscara de oxigênio. Deitei, me agasalhei melhor e tentei descansar. O Marc estava na função de derreter neve, o Matt estava organizando melhor a barraca (com 3 pessoas fica bem apertado, principalmente porque as roupas – macacão de pluma – e os sacos de dormir são muito volumosos). Preparamos algo para o jantar (um tipo de comida liofilizada) e fomos dormir. Consegui dormir bem, dentro das possibilidades.

Às 10:30pm o despertador tocou e começamos toda a função de nos prepararmos para a saída. Macacão de pena de ganso, vestir a cadeirinha, derreter neve, pegar alguma comida para levar, lanterna extra, preparar o cilindro de oxigênio (pesa 7kg)... muitas e muitas funções, que naquela altitude, dentro de uma barraca apertada, levou muito tempo para serem resolvidas. Finalmente depois de comer algo, saí da barraca e comecei a andar. Era em torno de meia-noite. Estava frio, mas com o macacão de pena de ganso eu estava até com um pouco de calor (devia estar em torno de -25 graus, sem nenhum vento). Comecei a andar devagar, pois ainda não sabia como meu corpo iria responder. Nisso, Matt e Marc passaram por mim, com dois sherpas. Algumas pessoas de nosso grupo já estavam caminhando. Eu ainda estava me ajeitando com tudo, principalmente com minha máscara, que ficava escorregando um pouco. Passei por vários escaladores chineses que estavam mais lentos, outros me passaram... finalmente consegui colocar um ritmo na minha caminhada. Quando vi, estava numa longa fila, na corda fixa. Devia ter umas 30 pessoas na minha frente. O engarrafamento era devido ao trecho mais técnico de toda a escalada, a Yellow Band – um trecho vertical de rocha, com mais ou menos 7 metros de altura. Na sequência havia uma pequena travessia e logo uma outra parte vertical de neve e algumas rochas. Tudo isso fazia com que os escaladores fossem mais devagar, formando esse gargalo. Fiquei pacientemente na fila, olhando tudo ao meu redor. Caiu a ficha que estava escalando um 8.000m, que tudo aquilo que um dia eu havia lido, estava acontecendo! Até essa espera me pareceu mágica... eu estava vivenciando um sonho! O céu estava estrelado mas com alguma névoa, a fila “luzinhas” subindo a montanha - para mim tudo aquilo era muito bonito. Chegou finalmente minha vez de passar a Yellow Band. Tentei alguns movimentos usando a piqueta e o jumar na corda fixa, e vi que não daria certo. Acabei deixando ela de lado e subi como se estivesse escalando em rocha mesmo (mas com botas triplas e crampons, não é muito “confortável”). A rocha erá sólida, o que me deu confiança de subir assim. Nem me pendurei na corda fixa para subir, como a maioria vez. Minha opção foi boa, pois terminei esse trecho sem estar muito ofegante. Entrei na travessia e logo estava no segundo trecho vertical, de neve. Escalei usando a piqueta e rapidamente havia vencido a parte mais difícil da escalada. E para mim, a mais bonita de todas... eu estava super focada, já não pensava em quase nada. Comecei a andar num ritmo muito bom, me distanciei das pessoas que estavam atrás de mim. De repente percebi que eu estava sozinha, sem sherpa, guia, amigos da expedição. Foi uma sensação indescritível! Senti que estava conectada à montanhas, estava lá de corpo e alma... tudo era lindo, eu estava presente no momento presente. Naquele momento, eu não me lembrava mais da existência de um cume. Eu ia subindo, sem me preocupar com nada... me sentia super bem e forte. Via as outras pessoas subindo, muitos sem oxigênio, com admiração... via nos rostos o tremendo esforço que estavam fazendo. Encontrei a Heidi, minha companheira de barraca que estava escalando sem oxigênio. Conversamos, ela disse que estava com muito frio e muito cansada. Dei para ela uma bala (eu andava com um estoque nos bolsos! – Irivan, valeu pela dica!!!) e continuei seguindo.

A noção de tempo é muito diferente nessa altitude. Eu não tenho na memória essa idéia do “quanto tempo passou”. Me lembro apenas de, num certo ponto, o céu estar mais claro. Parei para olhar e finalmente vi onde eu estava... uma rampa mais ou menos inclinada, e atrás de mim o vale com inúmeras montanhas, todas abaixo de mim. Pensei “nossa, estou
Dia de cume - nascer do sol
muito alto!”. Os picos começaram a ficar iluminados, cada vez mais... parei para olhar, era maravilhoso! Comecei novamente a andar, com a neve azul e o céu rosado pela luz do amanhecer. Tudo era mágico, eu estava totalmente encantada com tudo o que via... não me lembro de ver algo tão bonito na vida!

De repente, como se tivesse saído desse mundo de encantamento, vi algumas pessoas descendo e se aproximando de mim. Era o Mike, nosso guia. Ele me viu, me deu um abraço e disse: “vc está aqui! Tive medo que não fosse conseguir... Parabéns, vc está há 15 minutos do cume! Vc consesguiu!”. Cumprimentei os escaladores que estavam com ele, e comecei a andar novamente. O conceito “cume” havia ressurgido
Sombra do Cho Oyu
em minha mente e agora era lá que eu queria chegar. Mas eu estava feliz, muito feliz e não sentia cansaço nenhum. Vi então o Agnaldo descendo. Que alegria, ele havia chegado no cume e estava bem! Nos cumprimentamos, ele disse que estava muito frio em cima. Continuou sua descida e eu, minha subida. Encontrei logo mais o Peter, nosso segundo guia, ainda subindo. Seguimos juntos e finalmente, às 6am, chegamos no cume do Cho Oyu! De lá é possível ver o Everest, que estava no meio de uma névoa fina e dourado pelo sol nascendo. Não fiquei tão emocionada como achei que ficaria... eu estava ainda nesse estado de magia, conectada a montanha. Tudo era divino...


Realmente no cume o frio estava bem mais intenso, o que fez com que a bateria de minha
Cume!!!
câmera descarregasse (apesar de todos os cuidados que tomei). Peter tirou as fotos com sua câmera e ficamos lá talvez uns 15 ou 20 minutos (tirei a mochila e a máscara, queria sentir os 8.201m!). O frio nos fez andar novamente. Mochila nas costas, máscara no rosto e começamos a descida. Eu estava andando rápido e tinha que esperar por ele, as vezes. Mas fomos bem até o campo 3. Lá chegando, esperei o Matt e Marc empacotarem suas coisas para que eu pudesse entrar na barraca. Estava já com muito calor por causa do macacão de pena, queria me trocar. Coloquei uma roupa mais leve, consegui finalmente comer alguma coisa e me hidratar. Os sherpas já estava desmontando o acampamento e assim seguimos ao campo 2. Como ainda tinha oxigênio em meu cilindro, desci com a máscara. No campo 2 tivemos mais tempo para descansar e comer. Estávamos todos cansados e o corpo pedia uma parada. Alguns colocaram o isolante na neve e deitaram ali mesmo, outros entraram na barraca para o descanso. A Heidi, que conseguiu fazer o cume sem O2, estava na barraca – muito cansada pelo esforço todo, e só dormia. Eu tb deitei e consegui dormir um pouco. Acordamos e depois de comer alguns snacks, continuamos a descer. Apesar da distância, iríamos dormir no campo 1. Não era boa idéia permanecer no campo 2, pois a essa altitude (7.200m) nosso corpo não iria conseguir se recuperar do esforço do dia de cume. Nossos guias nos disseram que, se ficássemos no 2, provavelmente no dia seguinte estaríamos nos sentindo pior que antes. Assim, juntamos nossas coisas e descemos. Agora eu sentia muito cansaço, as pernas de vez em quando “falhavam” – dobravam sem querer e bum! caía sentada na neve. O Agnaldo disse estar
Chegando no C2
também cansado, e assim fomos juntos. Foi uma loooonga descida, o campo 1 não chegava nunca!!! Mas, finalmente em torno das 5:30pm chegamos... que alívio! Depois de um dia de praticamente 18 horas de escalada, só queria entrar na barraca e dormir... os guias derreteram neve para todos e, depois de comer meu jantar, dormi profundamente.

No dia seguinte, continuamos a descida, finalmente para o campo base. Os sherpas já haviam descido no dia anterior com mochilas gigantes (barracas do campo 2 e 3, cilindros de oxigênio e outras coisas mais). Mas, para irmos mais leves, deixamos várias coisas nas barracas do campo 1, para que os sherpas carregassem para nós no dia seguinte.

Chegamos no campo base em torno de 1pm. A neve começava a cair, o céu estava bem fechado. Era a tal tempestade, que havia chegado. Tivemos o tempo exato para o ciclo do cume, que maravilha! Depois do almoço, eu só podia pensar em dormir. Creio que, neste dia, foi basicamente o que fiz... comer e dormir! À noite, tivemos um bolo preparado por nosso grande cozinheiro, além de refrigerantes e cerveja. Comemoramos com todos da equipe... sherpas, cozinheiro e guias, pessoas que foram fundamentais para nossa escalada.
Ficamos dois dias no campo base, para que a logística do retorno fosse esquematizada. Foi ótimo, esses dias de descanso valeram a pena. Finalmente os yaks começaram a chegar, e senti uma certa tristeza... a expedição tinha terminado. Apesar de querer voltar para os luxos da civilização, me senti triste. No dia 5 iniciamos o retorno. Seriam 2 dias até chegar em Katmandu. Mas eu já sabia que meu coração havia ficado, definitivamente, nas montanhas.
No cume - Everest iluminado pelo sol nascente


Gostaria de agradecer a todos que acompanharam nossa expedição, e que torceram para nosso sucesso! Foram muitas as mensagens que recebi... não pude responder a todos, mas saibam que adorei ler e saber da torcida, de coração!
Agradeço as pessoas que, de forma mais direta, fizeram com que esse sonho fosse possível: Ricardo Lima (graaaande personal!), Viviane (querida profa de Pilates), equipe da Academia Iron, Dr. Masseo (fundamental para os cuidados com meus joelhos!).
Many many thanks ao Manoel Morgado, pelo incentivo e pelos equipos, e ao Irivan Burda, por todas as dicas (as balas foram fundamentais!) e empréstimo dos equipos.
Many many thanks aos guias Mike e Peter, a todos os nossos sherpas, Kaji e seu assistente. A todos os amigos da expedição, que dividiram essa experiência comigo.
Obrigada, de coração, ao grande parceiro Agnaldo. Valeu amigo, conseguimos!!!!
Que venham as próximas...



quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Em Katmandu


Olá amigos!

Já estamos aqui em Katmandu, eu e Agnaldo chegamos dia 26 e o Lui chegou antes e aproveitou para fazer um trekking.
Sempre gosto de chegar nesta cidade maluca. Acho que é qdo tenho que me desconectar do nosso conhecido mundo ocidental e entrar em outra maneira de viver, que é aqui na Ásia.
Esta é minha sexta visita ao Nepal, o que me deixa muito mais tranquila para andar nas
coisas de Katmandu
ruas labirínticas do Thamel, o bairro turístico da cidade, não perco muito tempo procurando restaurantes, lojas, etc. Já me sinto à vontade aqui, e toda essa confusão e extremos não me chocam mais.

Nestes dias, ficamos principalmente atrás de coisas que faltavam em nossa lista de equipamentos, remédios, coisas de supermercado. É incrível como essas listas nunca terminam! Qdo acho que terminei, me lembro de mais um item. Nada pode faltar, pois não teremos como comprar nada depois que entrarmos no onibus rumo ao Tibet, no dia 31. Iremos escalar a rota “normal” do Cho Oyu, pelo lado tibetano.

separando equipamentos na casa do Rinji
Hoje encontramos os guias da IMG (International Mountain Guides), Mike e Peter. Os dois são super simpáticos e experientes. Eles checaram todos os equipamentos de cada pessoa da expedição, justamente para que nada falte, ou que vá coisas a mais e que não serão usadas na montanha. Sempre essas questões de peso e volume são críticas em qualquer expedição, pois disso depende o número de pessoas / transporte para carregar tudo até o acampamento base. Seremos 12 escaladores.

Fomos depois para Boudhinath Stupa, um monumento budista que sempre adoro visitar. Tive enfim um “dia de turista”, só curtindo a vida que literalmente roda em volta da grande stupa, com os “Olhos de Buda” nas quatro direções (N, S, L, O), os olhos que tudo veem.


Amanhã a noite teremos um jantar, para conhecer os outros escaladores e para conversar sobre a logística da viagem e da escalada.

Nossa saída para o Tibet está marcada para o dia 31, bem cedo. Vou escrever novamente antes disso, contando as últimas novidades antes de seguir viagem.

Grande abraço a todos e obrigada por toda a energia positiva!