sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Trekking ao campo base do Everest


A próxima parada foi novamente o Nepal, para mais um pouco de trabalho (alguém tem que trabalhar nesse mundo!). Um grupo para o trekking do Everest.
Eu já havia feito esse trekking há 12 anos atrás, lembrava de algumas coisas e principalmente da volta - peguei alguma infecção e passei mal pra caramba. E não consegui realizar os objetivos da época, que era subir o Kala Patar (montanha de 5.500m logo na frente do Everest) e ir ao acampamento base do Everest.
Encontramos o grupo em Katmandu, um pessoal bem divertido e animado. Muitos estavam se planejando pra essa viagem há anos, e esse era o gde sonho de suas vidas... é interessante poder, de certa forma, fazer parte da realização dos sonhos das pessoas....
Fomos para o começo da trilha, de avião e de lá seguimos caminhado por 5 horas. Fui me lembrando dos lugares e de como essa região é linda. Não é a toa que é considerado um dos trekkings mais lindos do mundo.








As montanhas estão muito próximas o tempo todo, vamos passando pelos vilarejos ao longo de trilha. Seguimos acompanhando um rio que corta esse vale, indo na direção das montanhas. Vamos ganhando altitude rapidamente, a cada dia. Visitamos alguns mosteiros pelo caminho, e vamos entrando no clima budista que envolve todas as atividades dos locais. Os dias são um pouco puxados, muitas horas de caminhada todos os dias, e ganhando altitude, coisa que faz a maior diferença. Mas todos no grupo estavam indo super bem e se aclimatando. A vegetação vai ficando cada vez mais escassa conforme subimos e chegamos mais perto das montanhas. O visual é deslumbrante! 




Bom, tudo estava indo super bem até um cliente escorregar num degrau (tão pequeno!) e quebrar o pé. Ficamos todos super chateados, era um dos caras que tinha esse sonho de chegar ao Kala Patar e ao campo base. Planejava a viagem há alguns anos... e não ia conseguir. Ele ficou super mal, chorou pra caramba, mas não tinha o que fazer. Chamamos o helicóptero para o resgate, eu segui com os clientes e o Manoel e 2 sherpas ficaram para o resgate. Tudo deu certo, o cliente foi para a clínica em Katmandu, mas todos nós ficamos com aquele nó na garganta... por que isso tinha que acontecer? Será que ele conseguiria fazer o trekking de novo? Por que havia sido com ele, e não com qualquer um de nós? E se tivesse acontecido comigo? Enfim... mil perguntas. E todos nós ficamos, internamente, com um certo compromisso de ir ao Kala Patar por ele.



E assim fomos, dia a dia, nos aclimatando à altitude e subindo sempre. Cada um no seu ritmo, mas de modo geral estavam todos indo bem. Chegamos ao último vilarejo, almoçamos e descansamos por algumas horas antes de seguir ao Kala Patar. A idéia era ver o por do sol de lá de cima. E assim foi... o dia estava perfeito, bastante frio mas com o céu azul, sem uma nuvem. Cada um subiu no seu ritmo e mais ou menos as 5h estávamos todos no topo. Que alegria! Ver todos chegando, cada um com a sua superação (a subida não é fácil...), foi super bacana.... E para mim tb foi uma superação. Coisas de montanha, nesse dia eu estava me sentindo super fraca, e achei que não conseguiria subir. Em todo o caminho eu havia me sentido bem e forte, me aclimatando bem. E no dia X, lá estava, acabada. Achei que era alguma maldição de Chomolugma (nome original do Everest), pois pela segunda vez eu estava lá e me sentia doente. Mas fui assim mesmo, bem devagar... e cheguei! Foi muito legal mesmo... 




O por do sol é um espetáculo à parte. Todas as montanhas ficam tingidas de vermelho (mesmo). Conforme o sol desce, elas vão entrando na sombra e sobram apenas as mais altas - Everest, Lhotse e Nuptse (seus 2 vizinhos). Até que o sol fica apenas na mais alta, o Everest. É de arrepiar... Muitas fotos e comemorações depois, inclusive pro nosso companheiro que quebrou a perna, começamos a descida já no escuro. Muito frio, mas chegamos todos bem e felizes no lodge.



No dia seguinte, fomos ao campo base do Everest. Mais uma vez eu estava me sentindo cansada, mas fui. E lá cheguei! Eba! Fiz as pazes com Chomolugma.... rs. O lugar é bem "lunar". No meio de um glaciar, pedra e geleiras por todo lado. As montanhas enormes por toda a volta faz a gente se sentir tão pequeno e vulnerável. Senti uma gde admiração por todos esses "malucos" que se dispõe a escalar essas montanhas enormes. Acho que eu não teria essa coragem toda... 

A volta foi bem tranquila. As conversas acabam se voltando sempre a comida... rs. O que cada um está com vontade de comer... ou aquele banho quente... ou roupas limpas... rsrsrsrs. Mas apesar de tudo, todos felizes, felizes.... coisa boa....

bjs e abraços...
Li

Férias na Tailândia


Nada como merecidas férias depois dessa... Assim, depois do Nepal fomos pra Tailândia. iupiiiiiiiiiiii!
Chegamos em Bagkok, e a impressão foi de chegar numa cidade super moderna. Avenidas enormes saindo do aeroporto, carros bacanas, o aeroporto super bacana... bom, depois de Katmandu não precisa muito pra causar uma boa impressão... rs.
Ficamos o dia seguinte em Bagkok mesmo, pra conhecer a cidade. O Palácio Real é uma coisa fantástica, difícil até de fotografar. Quem quiser assista o filme Ana e o Rei, foi feito lá e conta um pouco da estória da Tailândia (antigo Sião). Ainda o regime é monarquia, o povo simplesmente ama o rei (sério) e ele não mora mais no Palácio Real. Este ficou só pra turista visitar mesmo... que bom. Depois de tomar um sorvete Hagen Das (cara, como a gente aprecia pequenas coisas depois de umas roubadas...) demos um passeio de taxi local (barco) visitamos mais alguns templos. Eles são, na gde maioria, budistas. Os templos são lindíssimos.






No dia seguinte fomos pra Tom Sai Beach, no sul da Tailândia, local de escalada em rocha. A praia não é tão bonita assim, mas as paredes de escalada são lindas... De calcáreo, super inclinadas e com vias pra todos os lados.
Um dos objetivos da nossa ida pra lá é que o Manoel queria aprender a escalar em rocha. Ele escala alta montanha e gelo, mas não rocha... e eu, na função de "professora" enferrujada, depois de 2 anos sem escalar..... aiaiaiaiaiai.... rsrsrsr.
Ficamos num bangalo super bacana, e nossa rotina era light. Na verdade, era a não rotina. Acordávamos a hora que acordávamos, saíamos da cama na hora que conseguíamos nos livrar da preguiça e íamos tomar um café da manhã (na hora do almoço) num restaurante simples e gostoso ali perto. De lá, íamos escalar em Railey Beach (do lado de Tom Sai, com vias mais fáceis) até acabar com os braços ou escurecer (o que acontecesse primeiro). Na volta pra casa, um mergulho no mar. Depois de um banho, íamos jantar. A comida tailandesa merece a fama... é maravilhosa! Muitos pratos com leite de coco, curry... ou simplesmente um atum fresco grelhado com molho local e uma salada... uau, demais de bom. Fora o tradicional pad tai, um prato parecido com yaksoba, mas beeeeem melhor....





E assim passamos os dias... fazendo amigos nas paredes de escalada, vendo os caras banbanban fazendo vias de teto que nos pareciam impossíveis, comendo bem, nos rendendo à preguiça muitas vezes, tomando um solzinho e um banho de mar. Nada mal mesmo!
abraços e bjs!
Li

Trekking ao redor do Manaslu


Bom, depois de tanto tempo sem escrever é interessante olhar pra trás e ver tudo o que já aconteceu nesse tempo.

O trekkingo do Manaslu (uma das 14 montanhas com mais de 8.000 m) foi muito bacana, principalmente por ter sido o meu primeiro como "trainee" de guia. O grupo era fora dos padrões... rs. Um pessoal um pouco mais velho e mais lento na trilha, e outro pessoal que apesar de não serem jovens, andavam bem. E assim, tivemos que ter um jogo de cintura enorme pra conseguir lidar com isso.
Estávamos acampados, pois não existe uma estrutura boa de lodges (algo como pousada) nessa região. Por outro lado, a cultura e os vilarejos são bem mais preservados, já que vai muito pouco turista... O que é muito legal. O ruim da estória é que o clima judiou um pouco. Tivemos um tanto de chuva e, pra quem não está acostumado a acampamento, pode ser super desconfortável. E, qdo já estávamos bem alto na trilha (uns 4.000 m), tivemos 3 dias de neve pesada. Nesses dias, acabamos alocando o pessoal no lodge pra ficarem mais confortáveis. Mas o gde problema é que tínhamos que fazer um "passo alto" (passagem entre dois vales de montanhas) pra continuar e terminar o trekking. Sabíamos que seria um dia super puxado devido a altitude (5.000 m) e a distância, e o pessoal era lento. Além disso, com as nevascas, iria ser pior que o normal. Estávamos já a ponto de desistir e chamar o helicóptero... Mas São Pedro resolveu dar uma canja e o tempo melhorou 100%. Céu azul, frio e neve branquinha... A galera se pilhou, e fomos.
Como nada rolou sem emoção... rs, tivemos um pouco no dia do passo. Uma das clientes começou e apresentar os sintomas de mal de altitude. Isso é super sério, e pode evoluir pra edema pulmonar, ou cerebral, e ai.... vixe, melhor nem pensar. Ela estava realmente mal, indo pra edema pulmonar, já não conseguia andar, mesmo tomando vários remédios. Tínhamos dois cavalos para os clientes e ela foi direto em um deles. Mas, no passo, o caminho era muito estreito e pedregoso, o cavalo não conseguia ir com alguém em cima. Bom, um dos nossos sherpas, um cara muito forte (Ringe) acabou indo com ela nas costas na parte final da subida e na parte mais íngreme da descida. Qdo foi possível novamente que ela cavalgasse, ela foi no cavalo. Eu fui acompanhando ela e outra cliente. O Manoel foi com o outro pessoal que estava ficando pra trás. Acabamos fazendo um acampamento de emergência no caminho. Um lugar já fora da altitude, perto de um rio. Tínhamos toda a estrutura de cozinha, comida, etc, então foi tranquilo. Mas a cliente estava realmente mal, mesmo descendo. Cogitamos chamar o helicóptero no dia seguinte de manhã. Mas, no dia seguinte, ela estava super bem e disse que queria seguir. Ela começou andando super bem, estávamos todos animados por termos feito o passo. perto da hora do almoço ela começou novamente a ficar mal. Pegou um dos cavalos. Além disso, estávamos muito atrasados e faltava muito ainda pra chegar. Pra agilizar, eu fui acompanhando a cliente com o cavalo e mais 3 que andavam rápido. O Manoel foi com outra cliente que estava mais lenta. Um dos sherpas foi comigo tb. Chegamos já a noite no lodge, muito cansados e decidimos que não dava mais pra ela continuar. Ela ficou super triste, queria terminar o trekking, mas não dava mais... No dia seguinte o helicóptero chegou, levou ela e mais uma cliente. Pra nós, ainda restava dois dias de caminhada até o final da trilha.
Esses dois dias foram  bem mais tranquilos, com direito a banho quente (uauuuuuuu) nos lodges e quarto com banheiro (uauuuuuuuuuuuuuuuuuu) no último dia.
Em Katmandu, encontramos com as duas. Estavam super bem, a clínica que "usamos" com clientes é ótima. No fim tudo acabou bem, e pra mim foi um batismo "com emoção" de sobra.... rs.
abraços e bjs!
Li



quarta-feira, 10 de novembro de 2010

em Kathmandu - 12 de outubro de 2010

Oi queridos!!!!
espero que esteja tudo bem por ai...
Por aqui tudo ótimo. Meio corrido, pra deixar tudo pronto pra sairmos para o trekking, que vai rolar a partir de amanhã, dia 13.
Bom, do começo...
Depois de 26 horas (contando a partir da saída da minha casa...) cheguei em Kathmandu, totalmente cansada e zonza, em função do fuso (+ 9 h com relação ao BR). Mas foi tudo certo, o Manoel já estava me esperando no aeroporto.
A chegada no Nepal é sempre chocante, pois é diferente demais do que vivemos no Br. Outro mundo... O jeito das pessoas se vestirem, como as coisas são organizadas, casas, tudo tudo tudo... Mas, apesar de toda essa diferença, me sinto super bem aqui. As pessoas são super gentis, queridas, e por mais que o trânsito seja um caos, são se vê uma briga, um stress. Parece até brincadeira... mas é verdade! rs. E assim é com tudo. Sempre estão sorridentes e de boa.
Kathmandu cresceu muito desde que vim pra cá, há 12 anos atrás. Muito mais carros e pessoas nas ruas... Mas a sensação de caos ainda é a mesma... rs.  Foi ficar aqui até amanhã, dia 13, qdo vamos todos (eu, Manoel e o grupo) pro trekking do Manaslu, de 16 dias. O grupo é bem bacana, são 3 americanos e 4 brasileiros. Um pessoal mais velho, e provavelmente vamos andar mais devagar na trilha. Mas são super figuras. A maioria nunca tinha vindo pra Ásia, então estão admirados com tudo.
Ficamos uns dias na função de comprar os equipamentos que faltavam pra eles e pra mim (roupas, botas, etc etc etc...). No dia 10 fomos pra Durbar Square, de Kathmandu (KTM) - a praça principal onde era o palácio real nos tempos antigos. Um lugar super bacana, com aqueles prédios típicos desta região (arquitetos, vcs iam adorar!!!). Suuuuper turístico, a cada passo a gente escuta alguém querendo vender algo. Além disso, estamos no meio de um festival, como se fosse o natal + ano novo deles. As ruas, na volta, estavam uma loucura! Realmente, é difícil de entender como as coisas não entram em colapso! Carros indo e vindo de todas as direçoes, um monte de gente andando pelo meio (não tem calçada) além das motos recheando essa bagunça... acho que os americanos ficaram meio impressionados... kkkkk.
Ontem fomos pra uma cidade aqui do lado, Baktapur, que foi outro "feudo". Muito mais bem conservado que KTM, não pode entrar carros - portanto, muito mais silencioso. E lindo de morrer!!!!! Arquitetura fantástica, as pessoas ainda mantém a maneira tradicional de se vestir e outros costumes. Todos amaram o passeio. Pra mim foi muito legal, pois já tinha visitado essa cidade, e foi dos passeios que mais gostei. Depois, demos um tempo pro grupo fazer compras e eu e o Manoel andamos por umas ruas que em geral os turistas não vão.... bacana demais...
Hoje ganhei de presente um voo de helicóptero pela região do Everest!!!! Foi uma surpresa, eu não fazia nem idéia que ia rolar... Acordei as 5.15 am e o Manoel me levou pro aeroporto. E só depois é que fiquei sabendo que eu ia buscar dois clientes que estavam no trekking para o acampamento base do everest e queriam fazer um voo panorâmico pela região. Bom, e lá fui eu e o piloto, voo particular (super chique) saindo do vale onde fica KTM em direção ao Himalaia. Vale embaixo, montanhas cada vez maiores dos lados... putz, muito lindo. Chegamos na vila onde começa o trekking do Everest, Lukla, e de lá (depois de abastecer) fomos buscar os 2 em outra vila. De lá continuamos seguindo na direçao das montanhas. mas estava com muitas nuvens, não pudemos ir até o acampamento base, como era o plano. mas de qquer jeito, foi muito, muito legal. Realmente essa região é indescritível... E ver tudo de cima, voando, putz... sem palavras!!!!
E agora estou terminando de organizar as coisas pra sairmos amanhã cedinho pro trekking. vai ser ótimo, pois ficar muito tempo em KTM cansa... rs.
Estou super feliz com tudo, na pilha de começar esse trekking, que vai ser novidade pra mim.
Até a próxima!
Li

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Mudando de vida


MUDANDO DE VIDA

Aeroporto de Adis Abeba... Onde é isso afinal? Esta é a capital da Etiópia. Acabamos de chegar, depois de alguns longos vôos.

Fiquei por um tempo parada esperando nosso check in, observando as pessoas que passavam. E que visão! Homens com trajes que pareciam ter saído das Mil e Uma Noites, com turbantes e túnicas... Mulheres negras, com roupas maravilhosamente estampadas, balançando os quadris com todo o swing e classe. Mulheres com suas burcas, todas de preto, com aquele ar pesado em volta delas... Negros altos e imponentes, com seus trajes variando do branco até o dourado. Turistas, no meio daquela profusão de rostos e cores, cansados de algum longo vôo.

O que mais me chamou a atenção, depois de tudo isso, foi como o mundo é grande. Não em tamanho, mas sim em diversidade. Esse é o tempero, é o que dá a graça, a beleza em todas as viagens. Talvez seja a parte mais difícil de explicar, de colocar em palavras...

O INÍCIO

Há exatamente um ano atrás, iniciei uma nova fase na minha vida. Foram vários inícios: novo relacionamento, novo trabalho e, além de tudo, uma nova maneira de viver. Iria trabalhar como guia de trekking, o que significava duas coisas muito importantes. Uma, eu trabalharia “outdoor”, o que sempre foi uma paixão para mim. Outra consequência dessa escolha, é que eu não moraria em lugar nenhum. É isso mesmo... Não teria casa.

Para isso acontecer tive que abandonar a minha vida convencional e “segura”. Sou engenheira mecânica de formação e estava trabalhando numa empresa, dentro da minha área e com ótimas chances de crescimento profissional dentro dela. Tinha meu apartamento, meu carro, minha família morando na mesma cidade que eu, amigos. Uma vida muito confortável, tranquila. Mas eu não estava feliz. Eu sempre tive uma certeza, de que devemos trabalhar naquilo que gostamos. Se não existe essa afinidade com o que fazemos na vida, tudo vira um peso.

Isso sempre foi algo importante para mim, mas que a maioria das pessoas nunca entendeu bem. A pergunta que me faziam era: não está feliz com o que? O parâmetro era que se eu tinha um emprego estável e ganhava bem, eu devia estar feliz com minha vida. Mas isso não acontecia...

Resolvi que queria tentar uma nova vida, buscando um trabalho que me trouxesse satisfação. Conversei com alguns amigos que trabalham com atividade experiencial e resolvi que era com isso que eu queria me envolver.

Por acaso, acabei encontrando um amigo que não via há 12 anos e que também já havia mudado radicalmente de estilo de vida. Depois de conversarmos por horas a fio, veio o convite: vamos trabalhar juntos como guia de trekking? Uau... Refleti muito sobre a decisão a tomar, mas creio que sempre soube que iria. Afinal, o máximo que poderia acontecer era não dar certo e ter que voltar.

Assim, a cada mês estou em um país diferente, guiando clientes por trilhas em lugares remotos nas montanhas ou então estou de férias – em geral, também nas montanhas. Eu e meu namorado vivemos basicamente em hotéis (quando estamos nas cidades) ou acampados (quando estamos nas trilhas). Nepal, Rússia, Mongólia, Marrocos, Tanzânia, Argentina – são alguns dos países onde trabalhamos.

A VIAGEM

Em geral as pessoas pensam que estou em férias “eternas”. O que não é verdade. Meu trabalho é como qualquer outro, com dias bons e dias nem tão bons assim. Trabalho do momento que acordo até a hora em que vou dormir. A grande diferença é que gosto do que faço. Gosto de andar o dia inteiro. Claro, se o dia está com o céu azul e a temperatura amena, ótimo. Mas, se estiver nevando... bom, para mim também tem sua beleza. Gosto de estar com os clientes e ver como cada um lida com os desafios de cada dia. Como vão crescendo e aprendendo sobre si mesmos.

Não ter casa foi um grande desafio. É o tipo de conceito tão enraizado que é difícil imaginar não tê-lo. Durante as viagens, passo por inúmeras lojinhas com milhares de coisas lindas – dá vontade de comprar tudo! Mas daí vem a pergunta: vou colocar onde?

A princípio não me sentia a vontade em hotéis. Quando podíamos ficar em apart hotel, com uma cozinha e uma varanda, era como estar em casa. Nas trilhas, onde geralmente acampamos, me sinto bem. Não me incomoda o fato de não dormir em cama e ter apenas um colchonete inflável e um saco de dormir, ou de ter apenas as roupas e coisas que possamos carregar nas mochilas. Sim, sinto falta de um bom banho quente e de ter um banheiro bacana... Mas sei que quando acaba a trilha vamos para uma cidade e ficamos bem instalados em um hotel. Com banheiro!

Claro, essa vida tem o seu preço. Sinto falta da minha família e dos meus amigos. Muitas vezes recebo os convites para o aniversário de um, casamento de outro. Mas estou longe, sem a menor chance de ir. Acho que esse é o maior preço a pagar pela opção de fiz. Por outro lado, valorizo muito mais essas pessoas queridas e quando estou por perto tento ver todo mundo.

Mas creio que a grande “viagem” é essa oportunidade que tenho de estar em países, em sua maioria, remotos e com sua cultura preservada. Poder estar no Nepal, vivenciando uma cultura hindu / budista e na sequência cair de pára-quedas no Marrocos, país muçulmano. É chegar na Tanzânia, África, depois de passar alguns meses na Ásia, e sentir o calor humano, os sorrisos fáceis e a musicalidade do “swahili”, o idioma local. É aceitar que somos todos diferentes, cada um com seu estilo de vida, e que, tirando alguns extremismos, não existe a maneira “certa” ou “errada”. Existem culturas diferentes.