segunda-feira, 6 de junho de 2011

Bali e Aconcágua - dez e jan de 2011

Oi pessoal!

Faz muito tempo que não escrevo... E tanta coisa aconteceu.
Depois do trekking ao campo base do Everest, eu e o Manoel fomos de férias pra Bali, onde passamos o Natal e o Ano Novo. Bali é um lugar lindo... tudo parece ter saído de uma dessas revistas de paisagismo! É incrível como essa questão da estética está inserida na cultura deles. Em todas as casas ou bangalôs, o jardim é lindo e faz uma composição com a construção. Além disso, eles usam muito flores para decorar qualquer coisa... sempre tem um vaso cheio de água onde eles fazem arranjos de flores. Lindo mesmo! Como disse o Manoel, Bali é um lugar onde a "belezura" vem de graça... verdade mesmo!
Lá ficamos numa vidinha que alternou trabalho na frente do computador, passeios na praia no final do dia, bons restaurantes e boa comida, curso de mergulho... simsim, fiz lá meu batismo! Nada mal... Além de um calorzinho pra variar. Como é bom andar de chinelo!!!
De lá começamos nossa maratona de vôos pra ir pra Argentina, pois tínhamos um grupo de trekking e de escalada no Aconcágua. De Bali voamos pra Tailândia, onde passamos uma noite. De Lá voamos pra Katmandu, onde dormimos tb uma noite. Outro vôo, de 4h até o Qatar, onde passamos umas 6h no aeroporto e emendamos outras 14h  até o Brasil. Ficamos 2 noites e outro vôo até Buenos Aires, e com atrasos em cima de atrasos (esses hermanos.... ) passamos umas 9h no aeroporto e arredores. E finalmente à noite chegamos em Mendoza. Totalmente quebrados....
Mendoza é uma cidade linda. Fica no meio de uma região árida da Argentina e é famosa pelos vinhos. Em função do turismo, tem vários hotéis bacanas e de todo preço. Ficamos alguns dias na cidade pra comprar e alugar equipamentos pro pessoal do nosso grupo e pra resolver questões burocráticas (permissão para entrar no parque do Aconcágua, etc).
Para mim, essa foi uma viagem bem dura... Eu não estava exatamente como guia, pois era minha primeira vez em alta montanha. A altitude não era algo novo, mas o processo de escalada sim. E, de qualquer jeito, a altitude pega.
Percebi, nessa viagem, que na grande maioria das vezes não é um fato isolado que compromete um bom resultado... É uma sequência de ações. Isso ficou bem claro, e acho que serve para a maioria dos mortais... Algumas estão sob nosso controle, outras não. E o jeito é saber como agir da melhor forma...
Aconteceu de tudo: tempestades de vento durante toda a noite, por 3 dias seguidos (2 no campo base e 1 no campo 1), que não deixam a gente dormir; eu com uma diarréia persistente que acabou me levando à desidratação (uma coisa super desgastante, eu nunca havia passado por algo assim...). Somando tudo isso, o resultado foi exaustão, que na altitude (já nos 5.500 m do campo 2) leva aos sintomas de mal de altitude. Pra cada pessoa isso bate de maneiras diferentes... Pra mim sempre é uma dor de cabeça alucinante, que no caso durou um dia e meio. Não havia remédio que passasse. O jeito foi ficar na barraca, quieta. Mas tudo, nessa altitude e em acampamento, é um esforço. Pra conseguir água, tínhamos que pegar e derreter neve. para comer, precisávamos da água, já que nossa comida era liofilizada. Ir ao banheiro era um trampo, voltávamos ofegantes como se tivéssemos corrido 2 km no pique... Esse "ficar quieta" acaba sendo bem relativo... rs.
Tínhamos combinado que, se eu não estivesse bem na manhã do dia seguinte, o pessoal subiria com os guias argentinos e eu e o Manoel esperaríamos até a hora do almoço pra ver como estaria minha dor de cabeça. Se nesse deadline eu ainda estivesse mal, eu desceria e ele subiria até o campo 3. Se eu estivesse bem, subiria tb. Dito e feito: no meio da manhã eu já estava me sentindo bem, almocei legal e começamos a desmontar o acampamento pra levar o resto das coisas pro campo 3 (no dia anterior, o Manoel já havia levado parte dos equipamentos pra lá - faz parte do processo de escalada). Qdo estávamos saindo, já com tudo nas mochilas, vimos os guarda parques e guias descendo com uma maca. estava começando a nevar, e o Manoel, como médico, foi olhar o que era. Um senhor de 69 anos, japonês, estava tentando escalar sozinho a montanha. Não tinha experiência, ficou 4 dias no campo 3, a 6.000m e fez 2 tentativas de cume. Resultado, estava com princípio de edema pulmonar, com congelamento dos dedos das mãos e situação bastante instável. O cara poderia pifar ali, na nossa frente. Correria pra estabilizar a situação, com oxigênio suplementar, etc... Nisso, recebemos um rádio no abrigo dos guarda parques em que estávamos, que estava descendo outra pessoa, com princípio de edema tb. Masssss.... só havia um cilindro de oxigênio, que estava com o japa! Começamos a ficar realmente apreensivos, pois o tempo ainda estava ruim e o helicóptero não conseguia voar até lá para o resgate. Seguramos a onda, até que finalmente às 17h o tempo melhorou, e os dois foram embora para o hospital. ufaaaaaa....
Mas, ficamos num impasse: ou a gente subia nesse horário mesmo, com o tempo meio estranho e com todas as coisas de camping, para acordar no campo 3 as 4h am para o ataque ao cume, ou a gente dormia no campo 2, acordava às 1.30h am e subia sem a tralha de camping, só com uma mochila leve. Nesse caso, encontrávamos o pessoal no c3 e às 5h am tocaríamos para o cume. Achamos a segunda idéia a melhor, já que subiríamos com muito menos peso. Estávamos os 2 fortes, e querendo descansar depois do stress com os resgates da tarde. E assim fizemos...
Às 3h am saímos da barraca. A noite estava maravilhosa, estrelada. Subimos com a luz da lanterna, coisa que eu só tinha visto em filme de montanha ou foto. E lá estava eu!!! uau.... muito bacana! Um frio daqueles... Tudo ia bem, o guarda parque havia me emprestado crampons (aparato para colocar na bota, cheio de dentes para andar no gelo), pois na madrugada eu iria precisar. Os meus crampons e minhas botas de gelo já estavam me esperando no c3, pois o plano inicial era subir a tarde e nesse caso, com a temperatura mais alta, eu não precisaria deles. Mas às 3 da manhã o gelo estava muito duro, e muito frio. E eu de bota de trekking.... meus pés começaram a ficar gelados. Muito gelados.... e mais, mais mais mais mais.... até eu não sentir mais os pés, pareciam pedaços de pedra. O melhor era ir pra cima, pois o c2 estava muito mais longe. Assim fomos.
Chegamos no c3, no horário certinho. O pessoal estava já pronto e saindo para o cume. Eu sem condições nenhuma, com pés congelados e princípio de hipotermia. Entrei correndo na barraca, a galera tocou para o cume com os guias argentinos. Ficou um dos clientes tb no c3, que não estava com a saturação boa. O Manoel correndo para ferver água para me aquecer. Foi 1,5h até eu me sentir bem novamente e simplesmente apagar.... caí num sono profundo até acordar novamente com a voz dos 3 que haviam subido com os guias argentinos. Estranhei... era cedo demais pra eles estarem de volta... Um estava com muito frio nos pés tb, e resolveu voltar. Os outros dois acharam que não iam dar conta, estavam cansados demais e resolveram voltar tb. Nessas montanhas, o desgaste para um ataque ao cume é super desgastante, e não há tempo suficiente para descansar e tentar um novo ataque. Assim, resolvemos todos descer.
Foram 2 dias de descida, super puxados. E à noite estávamos num hotel em Mendoza, tomando banho e dormindo numa cama maravilhosa! É incrível ver a água saindo da torneira... tão simples e tão bom! rs.
Apesar de não ter rolado cume pra ninguém, a experiência foi forte pra todos. Pra mim, foi exatamente isso... sequência de ações, que levam a um resultado nem sempre satisfatório. Mas por outro lado, não dava pra deixar os 2 resgatados e sair pra escalar a montanha. Acho que fizemos as escolhas certas. E, no fim, o cume não é tão importante assim. A montanha vai estar lá ainda por muito tempo, mas a gente não tem tanto tempo assim neste mundo.