segunda-feira, 28 de outubro de 2013

A escalada da Deusa Turquesa


ESCALANDO O CHO OYU – A DEUSA TURQUESA


“Um dia é preciso parar de sonhar, e partir”
Amyr Klink

Há muitos e muitos anos, li um livro – All 14 eighthousanders – de Reinhold Messner, sobre sua escalada de todas as montanhas com mais de 8.000m. Me lembro de ter ficado deslumbrada com aquele mundo de neve, gelo, botas, crampons e falta de oxigênio. Ao mesmo tempo, achei que aquilo era um sonho distante... na época, eu morava em Analândia, interior de São Paulo e minha realidade era terminar meu mestrado e escalar em rocha, no Cuscuzeiro.
Creio que a escalada do Cho Oyu começou lá, naquele ponto da minha vida. Não que eu soubesse que um dia escalaria uma dessas montanhas, mas creio que o sonho, ainda que aparentemente impossível, havia se criado em minha mente.

A APROXIMAÇÃO

A escalada do Cho Oyu tem algumas peculiaridades. Primeiro, todos os acampamentos são muito altos. Ter o acampamento base a 5.700m é difícil! Nessa altitude (mais alto que o Mt. Elbrus na Rússia, para se ter uma idéia...) nosso corpo nunca descansa e nunca estamos 100% aclimatados. Outra peculiaridade é que vamos de carro por um longo
Tingri com Cho Oyu ao fundo
trecho, de Katmandu no Nepal até o chamado Acampamento Base Chinês (no Tibet / China). Como ganhamos altitude muito rápido, temos que parar no caminho em algumas cidades tibetanas (ou chinesas) e passar nelas alguns dias, para fazer caminhadas de aclimatação. A partir do Acampamento Base Chinês, onde passamos 4 noites (mais caminhadas de aclimatação), seguimos finalmente caminhando rumo ao Acampamento Base do Cho Oyu. Paramos num acampamento intermediário e somente no dia seguinte é que chegamos no Acampamento Base do Cho Oyu, a 5.700m, que seria nossa “casa” no próximo mês.

A caminhada até o Acampamento Base do Cho Oyu começa por uma estrada de terra e depois de algumas horas finalmente entramos numa trilha em meio à moraina lateral do glaciar que desce das montanhas. Sinto finalmente a sensação de estar “na montanha”. A paisagem muda radicalmente, os picos estão cada vez mais próximos, podemos finalmente ver o glaciar e o famoso Nangpa La – o passo por onde os mercadores tibetanos seguiam com destino ao Nepal. Hoje em dia essa passagem é proibida pelo governo chinês.

Quando chegamos, toda a estrutura de nosso acampamento já está montada: cozinha, barracas, barraca refeitório, barracas banheiro, barraca chuveiro. Somos ao todo 11 escaladores, 6 sherpas, um cozinheiro, um assistente de cozinha e 2 guias.

ACAMPAMENTO BASE

Na escalada de alta montanha, passamos muito tempo no acampamento base. Isso porque, no geral, para cada dia que passamos na montanha temos que voltar e descansar pelo menos o mesmo número de dias no base.
Campo base

O campo base acaba sendo nossa “casa” na montanha. É lá onde conseguimos dormir melhor, comer “comida de verdade” (e não só snacks e comida liofilizada), onde conseguimos tomar um banho, lavar roupas e outras coisas cotidianas.

Lá, os dias seguem mais preguiçosos. Apesar de sempre acordarmos cedo, em geral o dia segue relax. Sempre arrumamos algo pra fazer... alguns preferem ficar na barraca lendo ou assistindo um filme (no computador, ipad, iphone...), outros vão fazer visitas às outras expedições que tb estão no campo base, outros jogam baralho. Cada um tem a sua barraca, o que é um luxo!

A ESCALADA

A escalada começa com o Puja, a cerimônia de oferenda aos deuses das montanhas.
Puja
Ninguém sobe a montanha antes do Puja, principalmente os sherpas. Nosso Puja foi num dia de muito frio e neve e demorou aproximadamente 3 horas. Eram 15 divindades e por isso demorou tanto. No fim, todos recebem um punhado de tsampa, um tipo de farinha, que jogamos uns nos outros... ficamos com os cabelos e rostos brancos, o que simboliza a chegada da idade... e desejamos “long life – vida longa” uns aos outros. Todos ficam de certa forma emocionados. Para mim, que sempre ouvira falar no Puja, fazer parte dessa cerimônia foi bastante especial.

A escalada é feita em ciclos. Para o Cho Oyu, tivemos 2 ciclos de aclimatação e depois o ciclo do cume.

No primeiro ciclo, o objetivo é chegar no campo 1, a 6.400m. O caminho é pela moraina, um misto de pedra e gelo. Depois de algumas horas, chegamos na parte final com uma inclinação bem forte para chegar no campo 1.
Caminho pela moraina

Eu já estava andando devagar pois senti que minha energia não estava 100%. Mas estava num ritmo razoável. Fiz a besteira de não comer nem beber o suficiente durante a caminhada pelas pedras... mesmo com experiência em montanha e sabendo que eu não podia fazer isso. A falta de oxigênio tira muito o apetite e a vontade de beber água. Assim, era preciso lembrar de comer e beber, e forçar um tanto a barra para isso. Mas acabei não fazendo, já que não recebi os “sinais” do corpo (sede e fome) e acabei deixando passar. Quando comecei a andar nessa parte mais inclinada, comecei a me sentir extremamente cansada. Meu ritmo diminuiu muito e um dos guias, Peter, acabou ficando comigo para trás. Da metade da subida para cima, já tinha neve e acabamos colocando botas, crampons e usando o ice axe. Me lembro de estar concentrada totalmente nos movimentos e na minha respiração – e para cada passo precisava respirar umas 4 vezes. Só pensava que estava perto e que tinha que chegar no campo 1. Não pensava em mais nada. Apenas sabia que esse, até então, esse estava sendo o dia mais duro em minha vida de escaladora.

Quando finalmente cheguei, sentei na neve sem nem tirar a mochila. Minha companheira de barraca, a alemã Heidi (muito forte e experiente, já havia escalado o Everest em 2012) percebeu meu estado e agilizou várias coisas para mim: pegou minha mochila e jogou dentro da barraca, me ajudou a desempacotar várias coisas, me deu algo para comer e encheu meu thermarest (colchonete inflável). Assim, pude entrar na barraca e finalmente descansar. Comecei a me hidratar e a comer o máximo que eu podia, para tentar repor minhas energias.
Durante a noite tive uma dor de cabeça muito forte, um dos sintomas do Mal de Altitude. Isso pode acontecer e não é um grande problema, desde que o quadro permaneça dessa forma. Apenas o desconforto é muito grande... Mas no dia seguinte já estava me sentindo bem e fizemos uma caminhada de aclimatação. Fomos até a base do ice cliff, uma parede vertical de neve e gelo que fica já na subida para o campo 2. Fomos até onde as cordas já haviam sido colocadas pelos sherpas. Ficamos lá por um tempo e voltamos ao campo 1 para a segunda noite nessa altitude. Dormi bem e no dia seguinte voltamos mais uma vez ao nosso acampamento base.

Chegamos lá, felizes (afinal para nós era como se fosse um hotel 5 estrelas...) e de repente percebi uma movimentação estranha, principalmente entre os sherpas que estavam lá e Mike, o guia principal. Havia acontecido uma avalanche, no trecho do ice cliff, onde os sherpas estavam trabalhando na fixação da cordas. As informações não chegavam com precisão, o que deixava todos bastante apreensivos... não havia resposta pelo rádio. Depois de uns 30 minutos, conseguimos finalmente ter alguma notícia concreta: um dos sherpas da Adventure Consultants estava guiando a cordada e uma placa de neve se descolou, vindo para cima dele. O nosso sherpa, Karma Rita, estava dando segurança. O primeiro levou uma pancada mais séria na cabeça e Karma Rita teve um corte feio no dedo, e machucou o joelho e a cabeça – apenas superficialmente. Foi um corre-corre dos sherpas para subir ao campo 1 naquela tarde, para trazer os dois machucados. Esses seres humanos fora do comum conseguem subir em 1h20min o que nós, meros mortais, fazemos em 4 ou 5 horas. Assim, no começo da noite vimos Karma Rita chegar no acampamento. Ele estava com uma expressão de medo no rosto, com a mão toda enfaixada e muitos ajudando ele a andar. Todos entraram na barraca depósito com Mike e Peter e lá ficaram. Peter, como é enfermeiro, cuidou dos ferimentos e assim o sherpa não precisou voltar a Katmandu. Depois recebemos a notícia de que o sherpa da Adventure Consultants, que seguiu para Katmandu para os devidos cuidados médicos, estava bem. Respiramos aliviados por saber que, no fim, tudo havia acabado bem.
A equipe: escaladores e guias

Passamos três dias no acampamento base, para recarregar nossas energias de novo. O cozinheiro da expedição , Kaji, era ótimo! Conseguia preparar desde pizza a dal bhat (prato típico nepalês: arroz, lentilhas e legumes no curry) maravilhosamente bem. Assim, sempre que voltamos ao base, aproveitamos para comer bem. Nos campos altos, é praticamente impossível repor toda a energia gasta durante a escalada. Primeiro porque o gasto calórico é muito alto, e depois porque realmente não temos apetite. Comer é sempre uma preocupação lá em cima, mas conseguir comer é que é o problema... No base também dormimos bem melhor, o que é fundamental para o corpo. Nesses dias no base, uma das atividades foi fazer um teste com as máscaras de oxigênio e aprendemos a lidar com os cilindros e reguladores.

O tempo estava bom, o que nos permitiu entrar na montanha para o segundo ciclo de aclimatação. O objetivo era passar uma noite no campo 1, uma noite do campo 2 (7.200m), voltar a dormir no 1 e descer ao campo base. Desta forma, estaríamos aclimatados a essa altitude e preparados para o ciclo do cume.
Seguindo para C2. C1 ao fundo

Havia, nas previsões de tempo, uma tempestade forte se aproximando. Sabíamos que não chegaria enquanto durasse este segundo ciclo de aclimatação, mas a previsão era que viria logo depois desse ciclo. Por essa razão, algumas expedições optaram por fazer o ataque ao cume já neste segundo ciclo. Já nossos guias decidiram fazer como o planejado – segundo ciclo e só depois o ciclo de cume.

Assim, no dia 24 de setembro seguimos novamente rumo à montanha. A caminhada ao campo 1, pela moraina, era sempre o pior trecho, o mais chato de passar. Mas fomos bem mais rápidos que no ciclo anterior e em aproximadamente 4 horas estávamos no campo 1. Me sentia super bem e tive uma boa noite de sono. No outro dia, seguimos ao campo 2. Esse trecho da escalada era um dos mais aguardados, pois sabíamos que havia uma parte mais difícil devido à inclinação quase vertical, o chamado ice cliff. Foi ai que havia acontecido a avalanche, alguns dias antes, quando os sherpas fixavam as cordas. Mas, no fim, eles abriram a rota de subida contornando pelo outro lado e evitando assim o trecho mais suscetível aos deslizamentos.

Toda a subida ao campo 2 teve uma inclinação mais pesada do que esperávamos. Saindo do campo 1 a subida já ficava mais forte, até finalmente chegarmos no ice cliff. Para mim,
Lisete no ice cliff
apesar da dificuldade e do cansaço (a falta de oxigênio nessa altitude é grande!), foi uma das partes mais divertidas da escalada. Passar pelo ice cliff exigiu mais técnica, além de mais energia. Mas não era um trecho tão longo, e logo depois havia uma parte mais plana onde paramos para descansar. Na sequência, havia uma longa subida, com uma inclinação razoável, que para mim foi mais extenuante que o próprio ice cliff. Fui devagar e finalmente cheguei no campo 2, que alívio! Havia batido meu record de altitude, que era 6.800m (escalando o Aconcagua)! Estava a 7.200! Era o record do Agnaldo também... nos demos os parabéns e já entramos nas barracas, para começar as funções “domésticas”. O primeiro passo é pegar neve, em grandes sacos. Depois, acender o fogareiro e começar a derreter a neve para termos água. Essa função demora praticamente o tempo todo, até a hora de dormir. Isso porque, enquanto derretemos a neve, também estamos consumindo a água que acabamos de conseguir (uma das grandes preocupações é a hidratação). Além disso, usamos essa água para preparar nosso jantar e também já deixamos as garrafas cheias para que, na manhã seguinte, não seja preciso gastar tanto tempo nessa atividade.
Phebe, Lisete e Heidi no C2

Nessa subida ao campo 2, praticamente metade de nosso grupo não conseguiu chegar. Como estavam mais lentos, foram até o ice cliff e acabaram voltando ao campo 1 para dormir. No dia seguinte, quando estávamos voltando ao campo 1, encontramos alguns no caminho e acabamos descendo juntos para mais uma noite no campo 1. Segundo nossos guias, essas pessoas tinham ainda condições de fazer o cume, sem problemas. Claro, o ideal era ter chegado no campo 2 para dormir, mas não chegar lá não era um impedimento para tentar o cume. Fiquei mais tranquila com essa notícia... numa expedição tão longa, acabamos criando laços com todos do grupo e torcemos para que todos consigam chegar no cume. Apesar de saber que  isso é difícil de acontecer...

Na descida ao campo 1, me senti extremamente cansada. As pernas não obedeciam muito as ordens do cérebro e dobravam de cansaço, o que acabava me fazendo cair sentada várias vezes... Encontrei o Agnaldo, que também estava mais lento que de costume e comentei isso com ele. E ele estava na mesma situação... muito cansaço! Cheguei no campo 1 aliviada, mas ao mesmo tempo preocupada: se estava me sentindo cansada aqui, será que teria condições de chegar no cume? Conversei com Mike e com um de nossos sherpas sobre esse cansaço, e os dois me disseram a mesma coisa: muitas vezes a noite no campo 2, por ser muito alta, não permite que nosso corpo descanse o suficiente. Assim, o resultado é esse cansaço acumulado no dia seguinte. Já a noite no campo 1 foi tranquila e no dia seguinte já me sentia bem melhor. Descemos novamente para o base. Eu estava novamente feliz por poder comer e dormir bem, mais uma vez.

Ficamos 4 dias no base, para descanso. Nos dois primeiros dias eu não tinha vontade de fazer nada, apenas comer e dormir. Acho que todos estavam assim, pois o acampamento estava mais silencioso e tranquilo que o normal. A partir do terceiro dia já estava na rotina de sempre: café da manhã, bate papo no sol, almoço, jogar cartas, descansar na barraca antes do jantar, jantar e dormir. A previsão do tempo ainda falava sobre a tempestade, mas o tempo continuava firme na montanha. Os guias e sherpas decidiram o dia de nossa subida para o ciclo do cume: dia 28 de setembro. Confesso que tive aquele frio na barriga... finalmente chegava esse momento que eu havia esperado tanto! É um misto de apreensão, ansiedade e um certo medo, misturado com a vontade de ir e fazer uma boa escalada. Me lembro que, numa noite após o jantar, o céu estava completamente limpo e dava para ver milhões de estrelas. Fiquei lá olhando o céu, num daqueles momentos mágicos em que se consegue simplesmente estar presente, no momento presente. E me veio à cabeça tudo o que me havia trazido para essa escalada. O meu treinamento, todas as escaladas anteriores, tudo... tive uma certa “certeza” de que tudo estava bem, que tudo daria certo, independentemente dos resultados. E fui dormir tranquila...
Jerri, Brenda, Mark, Lisete

No dia 28, seguimos finalmente para o ciclo de cume. O cronograma era: dormir no campo 1, dormir no campo 2, seguir para o campo 3 e chegar lá em torno de 4pm, descansar já usando oxigênio, levantar às 10:30pm para começar o ataque ao cume à meia-noite.

Durante a caminhada ao campo 1, numa das paradas de descanso, o Lui nos disse que iria desistir. Eu e Agnaldo levamos um susto e tentamos conversar, para que ele continuasse na escalada. Mas vimos que ele estava decidido, não tinha muito o que falar. Eu estava super emocionada e triste, vi que os dois também estavam... eu já havia imaginado o trio brasileiro no cume, e agora isso não iria mais acontecer! Eu sabia, também, que esta escalada era importante para ele... fiquei muito, muito chateada. O Lui foi conversar com os guias e avisar de sua desistência. Não tinha nada que eu pudesse fazer, apenas desejar a ele um bom retorno. Assim, fomos em direções opostas... ele voltou dali mesmo ao campo base e nós começamos a subir a parte final, para chegar ao campo 1. Foi um grande esforço me focar novamente na montanha e na escalada...

Heidi, Lisete e Brenda no caminho para C2
No campo 1, nessa noite, tive uma forte dor de cabeça. Foi um tanto surpreendente, já que teoricamente eu já estava aclimatada a essa altitude. Mas enfim, a lógica não funciona bem na montanha. Acabei acordando cansada mas segui ao campo 2. Me senti muito mais cansada que no segundo ciclo e comecei a ficar realmente preocupada. É inevitável surgir a dúvida: será que vou dar conta??? Mas cheguei bem no campo 2. Começamos as funções de sempre, derreter a neve, jantar, descansar. Durante a noite, novamente fortes dores de cabeça. Eu não estava acreditando... meu estoque de analgésicos já estava quase acabando! Claro, no dia seguinte eu estava me sentindo super fraca, cansada. Estava triste, pois achei que eu não iria conseguir chegar no campo 3 e muito menos no cume. O Agnaldo apareceu na minha barraca, conversamos. Depois o Mike veio conversar, e me perguntou: vc acha que consegue ir para o campo 3? Fiquei com medo de que ele pudesse me cortar do ataque ao cume, que ele me dissesse que eu teria que descer. Respondi com a maior firmeza que pude naquela hora, que sim. Ele respondeu que, caso eu não me sentisse bem e precisasse voltar, não haveria problema. Isso eu sabia... o que eu não sabia era se teria condições de fazer o ataque ao cume ou não... Pedi ao Mike para sair um pouco depois que o grupo, ele concordou. O Phunuru, nosso sardar (chefe dos sherpas), iria seguir comigo.

Terminei de montar a mochila e finalmente começamos a caminhar. Eu estava com a energia super baixa e segui bem devagar. Podia ver o grupo andando na frente, mas não estava preocupada em alcançá-lo. Só me concentrava nos passos e na respiração: um passo, 3 respiradas. Apesar de ser uma distância curta e pouco ganho de altitude do campo 2 ao 3, a inclinação é pesada. Além disso, estar a mais de 7.000m já é um esforço enorme para o corpo. Eu ia devagar para poupar minha energia... não queria chegar exausta no campo 3, pois isso definitivamente poderia me custar o cume.

Mais ou menos no meio do caminho, perguntei ao Phunuru quanto tempo faltava para chegarmos. Ele pensou e disse: 3 horas e meia. Já era 2 da tarde, o que significada chegar no campo 3 quase 6pm!!! Isso seria tarde demais, já que eu teria muito pouco tempo para descanso... Comecei a avaliar friamente minhas condições, que não eram nada boas. Percebi que não iria valer a pena e o esforço de fazer o ataque ao cume, pois eu não teria a menor condição de conseguir. Quando eu ia falar ao Phunuru que iria desistir, me deu um “click” difícil de explicar... uma mistura de raiva comigo mesma e da situação, e aquela sensação do “não vou desistir agora”. Pensei comigo “vou chegar no campo 3 nem que seja arrastada, e não vou demorar 3 horas e meia. Posso não chegar no cume, mas vou chegar no campo 3”. Com isso na cabeça, comecei a andar bem mais rápido do que estava andando até então. Claro, fiquei mais ofegante, mas consegui colocar um ritmo na subida e fui. Finalmente, às 4:30h cheguei no campo 3! Eu não conseguia acreditar, nem pensar direito... Vi o Mike andando na minha direção e me dando os parabéns por ter conseguido.
Chegando no C3
O Agnaldo começou a gritar da sua barraca: “cara, vc conseguiu, que animal!!!!”. Fiquei feliz comigo mesma... Entrei na minha barraca (que iria dividir com Matt e Marc) e já coloquei a máscara de oxigênio. Deitei, me agasalhei melhor e tentei descansar. O Marc estava na função de derreter neve, o Matt estava organizando melhor a barraca (com 3 pessoas fica bem apertado, principalmente porque as roupas – macacão de pluma – e os sacos de dormir são muito volumosos). Preparamos algo para o jantar (um tipo de comida liofilizada) e fomos dormir. Consegui dormir bem, dentro das possibilidades.

Às 10:30pm o despertador tocou e começamos toda a função de nos prepararmos para a saída. Macacão de pena de ganso, vestir a cadeirinha, derreter neve, pegar alguma comida para levar, lanterna extra, preparar o cilindro de oxigênio (pesa 7kg)... muitas e muitas funções, que naquela altitude, dentro de uma barraca apertada, levou muito tempo para serem resolvidas. Finalmente depois de comer algo, saí da barraca e comecei a andar. Era em torno de meia-noite. Estava frio, mas com o macacão de pena de ganso eu estava até com um pouco de calor (devia estar em torno de -25 graus, sem nenhum vento). Comecei a andar devagar, pois ainda não sabia como meu corpo iria responder. Nisso, Matt e Marc passaram por mim, com dois sherpas. Algumas pessoas de nosso grupo já estavam caminhando. Eu ainda estava me ajeitando com tudo, principalmente com minha máscara, que ficava escorregando um pouco. Passei por vários escaladores chineses que estavam mais lentos, outros me passaram... finalmente consegui colocar um ritmo na minha caminhada. Quando vi, estava numa longa fila, na corda fixa. Devia ter umas 30 pessoas na minha frente. O engarrafamento era devido ao trecho mais técnico de toda a escalada, a Yellow Band – um trecho vertical de rocha, com mais ou menos 7 metros de altura. Na sequência havia uma pequena travessia e logo uma outra parte vertical de neve e algumas rochas. Tudo isso fazia com que os escaladores fossem mais devagar, formando esse gargalo. Fiquei pacientemente na fila, olhando tudo ao meu redor. Caiu a ficha que estava escalando um 8.000m, que tudo aquilo que um dia eu havia lido, estava acontecendo! Até essa espera me pareceu mágica... eu estava vivenciando um sonho! O céu estava estrelado mas com alguma névoa, a fila “luzinhas” subindo a montanha - para mim tudo aquilo era muito bonito. Chegou finalmente minha vez de passar a Yellow Band. Tentei alguns movimentos usando a piqueta e o jumar na corda fixa, e vi que não daria certo. Acabei deixando ela de lado e subi como se estivesse escalando em rocha mesmo (mas com botas triplas e crampons, não é muito “confortável”). A rocha erá sólida, o que me deu confiança de subir assim. Nem me pendurei na corda fixa para subir, como a maioria vez. Minha opção foi boa, pois terminei esse trecho sem estar muito ofegante. Entrei na travessia e logo estava no segundo trecho vertical, de neve. Escalei usando a piqueta e rapidamente havia vencido a parte mais difícil da escalada. E para mim, a mais bonita de todas... eu estava super focada, já não pensava em quase nada. Comecei a andar num ritmo muito bom, me distanciei das pessoas que estavam atrás de mim. De repente percebi que eu estava sozinha, sem sherpa, guia, amigos da expedição. Foi uma sensação indescritível! Senti que estava conectada à montanhas, estava lá de corpo e alma... tudo era lindo, eu estava presente no momento presente. Naquele momento, eu não me lembrava mais da existência de um cume. Eu ia subindo, sem me preocupar com nada... me sentia super bem e forte. Via as outras pessoas subindo, muitos sem oxigênio, com admiração... via nos rostos o tremendo esforço que estavam fazendo. Encontrei a Heidi, minha companheira de barraca que estava escalando sem oxigênio. Conversamos, ela disse que estava com muito frio e muito cansada. Dei para ela uma bala (eu andava com um estoque nos bolsos! – Irivan, valeu pela dica!!!) e continuei seguindo.

A noção de tempo é muito diferente nessa altitude. Eu não tenho na memória essa idéia do “quanto tempo passou”. Me lembro apenas de, num certo ponto, o céu estar mais claro. Parei para olhar e finalmente vi onde eu estava... uma rampa mais ou menos inclinada, e atrás de mim o vale com inúmeras montanhas, todas abaixo de mim. Pensei “nossa, estou
Dia de cume - nascer do sol
muito alto!”. Os picos começaram a ficar iluminados, cada vez mais... parei para olhar, era maravilhoso! Comecei novamente a andar, com a neve azul e o céu rosado pela luz do amanhecer. Tudo era mágico, eu estava totalmente encantada com tudo o que via... não me lembro de ver algo tão bonito na vida!

De repente, como se tivesse saído desse mundo de encantamento, vi algumas pessoas descendo e se aproximando de mim. Era o Mike, nosso guia. Ele me viu, me deu um abraço e disse: “vc está aqui! Tive medo que não fosse conseguir... Parabéns, vc está há 15 minutos do cume! Vc consesguiu!”. Cumprimentei os escaladores que estavam com ele, e comecei a andar novamente. O conceito “cume” havia ressurgido
Sombra do Cho Oyu
em minha mente e agora era lá que eu queria chegar. Mas eu estava feliz, muito feliz e não sentia cansaço nenhum. Vi então o Agnaldo descendo. Que alegria, ele havia chegado no cume e estava bem! Nos cumprimentamos, ele disse que estava muito frio em cima. Continuou sua descida e eu, minha subida. Encontrei logo mais o Peter, nosso segundo guia, ainda subindo. Seguimos juntos e finalmente, às 6am, chegamos no cume do Cho Oyu! De lá é possível ver o Everest, que estava no meio de uma névoa fina e dourado pelo sol nascendo. Não fiquei tão emocionada como achei que ficaria... eu estava ainda nesse estado de magia, conectada a montanha. Tudo era divino...


Realmente no cume o frio estava bem mais intenso, o que fez com que a bateria de minha
Cume!!!
câmera descarregasse (apesar de todos os cuidados que tomei). Peter tirou as fotos com sua câmera e ficamos lá talvez uns 15 ou 20 minutos (tirei a mochila e a máscara, queria sentir os 8.201m!). O frio nos fez andar novamente. Mochila nas costas, máscara no rosto e começamos a descida. Eu estava andando rápido e tinha que esperar por ele, as vezes. Mas fomos bem até o campo 3. Lá chegando, esperei o Matt e Marc empacotarem suas coisas para que eu pudesse entrar na barraca. Estava já com muito calor por causa do macacão de pena, queria me trocar. Coloquei uma roupa mais leve, consegui finalmente comer alguma coisa e me hidratar. Os sherpas já estava desmontando o acampamento e assim seguimos ao campo 2. Como ainda tinha oxigênio em meu cilindro, desci com a máscara. No campo 2 tivemos mais tempo para descansar e comer. Estávamos todos cansados e o corpo pedia uma parada. Alguns colocaram o isolante na neve e deitaram ali mesmo, outros entraram na barraca para o descanso. A Heidi, que conseguiu fazer o cume sem O2, estava na barraca – muito cansada pelo esforço todo, e só dormia. Eu tb deitei e consegui dormir um pouco. Acordamos e depois de comer alguns snacks, continuamos a descer. Apesar da distância, iríamos dormir no campo 1. Não era boa idéia permanecer no campo 2, pois a essa altitude (7.200m) nosso corpo não iria conseguir se recuperar do esforço do dia de cume. Nossos guias nos disseram que, se ficássemos no 2, provavelmente no dia seguinte estaríamos nos sentindo pior que antes. Assim, juntamos nossas coisas e descemos. Agora eu sentia muito cansaço, as pernas de vez em quando “falhavam” – dobravam sem querer e bum! caía sentada na neve. O Agnaldo disse estar
Chegando no C2
também cansado, e assim fomos juntos. Foi uma loooonga descida, o campo 1 não chegava nunca!!! Mas, finalmente em torno das 5:30pm chegamos... que alívio! Depois de um dia de praticamente 18 horas de escalada, só queria entrar na barraca e dormir... os guias derreteram neve para todos e, depois de comer meu jantar, dormi profundamente.

No dia seguinte, continuamos a descida, finalmente para o campo base. Os sherpas já haviam descido no dia anterior com mochilas gigantes (barracas do campo 2 e 3, cilindros de oxigênio e outras coisas mais). Mas, para irmos mais leves, deixamos várias coisas nas barracas do campo 1, para que os sherpas carregassem para nós no dia seguinte.

Chegamos no campo base em torno de 1pm. A neve começava a cair, o céu estava bem fechado. Era a tal tempestade, que havia chegado. Tivemos o tempo exato para o ciclo do cume, que maravilha! Depois do almoço, eu só podia pensar em dormir. Creio que, neste dia, foi basicamente o que fiz... comer e dormir! À noite, tivemos um bolo preparado por nosso grande cozinheiro, além de refrigerantes e cerveja. Comemoramos com todos da equipe... sherpas, cozinheiro e guias, pessoas que foram fundamentais para nossa escalada.
Ficamos dois dias no campo base, para que a logística do retorno fosse esquematizada. Foi ótimo, esses dias de descanso valeram a pena. Finalmente os yaks começaram a chegar, e senti uma certa tristeza... a expedição tinha terminado. Apesar de querer voltar para os luxos da civilização, me senti triste. No dia 5 iniciamos o retorno. Seriam 2 dias até chegar em Katmandu. Mas eu já sabia que meu coração havia ficado, definitivamente, nas montanhas.
No cume - Everest iluminado pelo sol nascente


Gostaria de agradecer a todos que acompanharam nossa expedição, e que torceram para nosso sucesso! Foram muitas as mensagens que recebi... não pude responder a todos, mas saibam que adorei ler e saber da torcida, de coração!
Agradeço as pessoas que, de forma mais direta, fizeram com que esse sonho fosse possível: Ricardo Lima (graaaande personal!), Viviane (querida profa de Pilates), equipe da Academia Iron, Dr. Masseo (fundamental para os cuidados com meus joelhos!).
Many many thanks ao Manoel Morgado, pelo incentivo e pelos equipos, e ao Irivan Burda, por todas as dicas (as balas foram fundamentais!) e empréstimo dos equipos.
Many many thanks aos guias Mike e Peter, a todos os nossos sherpas, Kaji e seu assistente. A todos os amigos da expedição, que dividiram essa experiência comigo.
Obrigada, de coração, ao grande parceiro Agnaldo. Valeu amigo, conseguimos!!!!
Que venham as próximas...



quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Em Katmandu


Olá amigos!

Já estamos aqui em Katmandu, eu e Agnaldo chegamos dia 26 e o Lui chegou antes e aproveitou para fazer um trekking.
Sempre gosto de chegar nesta cidade maluca. Acho que é qdo tenho que me desconectar do nosso conhecido mundo ocidental e entrar em outra maneira de viver, que é aqui na Ásia.
Esta é minha sexta visita ao Nepal, o que me deixa muito mais tranquila para andar nas
coisas de Katmandu
ruas labirínticas do Thamel, o bairro turístico da cidade, não perco muito tempo procurando restaurantes, lojas, etc. Já me sinto à vontade aqui, e toda essa confusão e extremos não me chocam mais.

Nestes dias, ficamos principalmente atrás de coisas que faltavam em nossa lista de equipamentos, remédios, coisas de supermercado. É incrível como essas listas nunca terminam! Qdo acho que terminei, me lembro de mais um item. Nada pode faltar, pois não teremos como comprar nada depois que entrarmos no onibus rumo ao Tibet, no dia 31. Iremos escalar a rota “normal” do Cho Oyu, pelo lado tibetano.

separando equipamentos na casa do Rinji
Hoje encontramos os guias da IMG (International Mountain Guides), Mike e Peter. Os dois são super simpáticos e experientes. Eles checaram todos os equipamentos de cada pessoa da expedição, justamente para que nada falte, ou que vá coisas a mais e que não serão usadas na montanha. Sempre essas questões de peso e volume são críticas em qualquer expedição, pois disso depende o número de pessoas / transporte para carregar tudo até o acampamento base. Seremos 12 escaladores.

Fomos depois para Boudhinath Stupa, um monumento budista que sempre adoro visitar. Tive enfim um “dia de turista”, só curtindo a vida que literalmente roda em volta da grande stupa, com os “Olhos de Buda” nas quatro direções (N, S, L, O), os olhos que tudo veem.


Amanhã a noite teremos um jantar, para conhecer os outros escaladores e para conversar sobre a logística da viagem e da escalada.

Nossa saída para o Tibet está marcada para o dia 31, bem cedo. Vou escrever novamente antes disso, contando as últimas novidades antes de seguir viagem.

Grande abraço a todos e obrigada por toda a energia positiva!

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Falta pouco para começar a expedição ao Cho Oyu!


Olá amigos!

Agora falta pouco pra começar a expedição ao Cho Oyu.

Foram 6 meses de preparo físico e emocional pra encarar essa escalada. Me sinto bem, motivada e, principalmente, feliz. Vai ser a realização de um sonho, antigo e que achei que não conseguiria realizar. Vou com a certeza de que tudo que acontecer será bom, me trará experiências que eu não teria de outra forma.

Hoje tenho a impressão que toda minha vida se afunilou para este exato momento. Todas as experiências, escolhas, tudo. É engraçado isso... mas ao mesmo tempo dá a certeza de que estou no caminho certo.

Treino preparado pelo Ricardo
Sei que não vai ser fácil, mas isso eu já sabia qdo fiz a escolha de escalar essa montanha. Tudo foi feito com muita consciência da realidade, do que me espera lá, das consequências de uma escalada de uma montanha com mais de 8.000m. E é claro que tudo isso é que dá um gostinho especial a essa montanha.

Agradeço de coração a algumas pessoas que foram fundamentais nestes últimos meses: Ricardo Lima, meu personal, que conseguiu fazer um treinamento incrível em 6 meses; Viviani, professora de Pilates e apaixonada pelo método, conseguiu usar os exercícios que só via no livro nas minhas aulas e fazer esta aluna “suar a camisa” literalmente; ao Manoel Morgado por toda a experiência adquirida nesses últimos anos, por acreditar em mim e pelos empréstimos de equipos; equipe da Academia Iron, me deu o maior apoio em tudo, com dicas, correções, idéias e conversas, qdo eu achava que o treino não tinha sido assim tão bom; ao grupo Papa Trilhas, me pegaram pela mão e me levaram a fazer as trilhas de Botucatu e região, me ajudando com meus treinos
Teletubs: empréstimo do Irivan
outdoor; à Sônia e Bethinha, sem elas a cabeça e as emoções estariam completamente fora de sintonia; Dr. Antônio Masseo, que cuidou dos meus joelhos como ninguém, a minha família que apesar de não entender muito bem as razões disso tudo, aceitou e me apoiou.

eu e Cau, em Itajubá, num dia de treino outdoor
Agradeço tb a todos os amigos que me deram tanta força, através de conversas, mensagens, ligações. Se eu fosse escrever o nome de todos aqui, ia ficar grande demais... se sintam abraçados, de coração.
com Eliseu e Ed, escalando no Bauzinho
com o grupo Papa Trilhas

Na madrugada de sábado para domingo embarcamos, eu e o parceiro Agnaldo. Mandaremos notícias sempre que possível... a comunicação não será tão simples, mas vamos dar um jeito.

Agora é foco total para a Deusa Turqueza...

Grande abraço a todos!!!

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Treinamento para a escalada do Cho Oyu


Olá amigos!

Agora falta pouco para começar a expedição ao Cho Oyu! Dia 25 de agosto sairemos (eu e Agnaldo) do Brasil rumo a Katmandu, Nepal, para encontrar com o restante do pessoal. Claro, a ansiedade está aumentando, assim como as expectativas sobre a escalada. Mas estou confiante de que vai dar tudo certo... Não importa tanto o cume. O importante é fazer uma boa escalada e chegar inteira de volta ao Brasil. Mas é claro que quero o cume!!!

Muita gente me pergunta sobre meu treinamento nestes meses, como preparação para a escalada. Assim, resolvi escrever este post sobre isso.

Mas desde já alerto a todos os leitores: NÃO TENTEM FAZER ESTE TREINAMENTO POR CONTA PRÓPRIA. TENHAM SEMPRE UM PROFISSIONAL QUALIFICADO PARA DAR UM TREINAMENTO QUE SE ENCAIXE ÀS SUAS NECESSIDADES E AO SEU CORP   
Este treinamento me foi passado pelo personal trainer de São Paulo, Ricardo Lima, que é especialista em preparar pessoas para encarar a escalada de montanhas.

A idéia era melhorar meu condicionamento em 6 meses, para aguentar a escalada de uma montanha de 8.000m. Eu já estava com um bom condicionamento, resultado de dois anos e meio voltados totalmente às montanhas, fazendo trekkings e escaladas. Assim, tivemos duas fases: a primeira, um fortalecimento geral do corpo e trabalho aeróbico com carga (mochila pesada); a segunda fase teve ênfase no aumento de cargas, trabalho de explosão e resistência. Tudo isso para criar uma boa base física, chave para uma boa performance na hora do “rock’n roll” de verdade...

Assim, minha rotina na primeira fase foi:

Dia 1 e dia 4
- yoga 

- esteira inclinada (começando com 7% e aumentando semanalmente até 11% com picos de 15%) com mochila pesada (comecei com 12 kg e tb aumentei a cada 10 dias o peso, até chegar em 19 kg) por uma hora
-tranport, muito rápido (parece um trotinho) por 20 min
-musculação para membros inferiores e abdominais (praticamente só exercícios funcionais, onde não uso dos aparelhos tradicionais de musculação, mas sim bolas, elásticos, etc).

Dia 2 e dia 5
- yoga
- escada: subir e descer 13 andares com a mesma mochila usada na esteira, por 1h em ritmo tranquilo
-musculação para membros superiores, costas e cinturão (tb usando ex. funcionais)

Dia 3
- Pilates

Sábado: descanso

Domingo: caminhada outdoor ou bike (treino mais longo)

Os exercícios funcionais acabam trabalhando mais grupos musculares ao mesmo tempo, qdo comparado aos aparelhos de musculação tradicionais. Além disso, meu objetivo não era hipertrofia muscular... Achei que dão um resultado muito bom.

Percebi nessa primeira fase que eu estava ficando muito cansada ao longo da semana. Conversando com alguns profissionais da área, me sugeriram suplementar minha alimentação com proteína. Não sou vegetariana, mas mesmo assim resolvi experimentar e o resultado foi muito ótimo. Já não sentia aquela fome animal depois dos treinos, e percebi que esse desgaste e cansaço melhoraram muito, o que possibilitou que eu levasse os treinos na mesma intensidade, todos os dias.

Depois de alguns meses, um dia bateu um pânico: será que estarei preparada o suficiente? Será que estou treinando corretamente? Será que não preciso de mais??? Imagino que essas perguntas sempre venham na cabeça de atletas com algum objetivo claro à frente. Mas olha, se não fosse o Ricardo pra me tranquilizar, acho que tinha surtado... rs.

Passamos então à segunda fase do treinamento, para (segundo o Ricardo) os ajustes finos...

Dia 1
- yoga
- explosão no transport: depois de aquecer, dar o máximo de intensidade por alguns
segundos, recuperação de alguns segundos, outro ciclo de explosão, recuperação... são 9 “tiros”, com o tempo de máxima intensidade aumentando a cada tiro, e o tempo de recuperação diminuindo. Três ciclos desses no treino, que ao todo dura 45 min. O objetivo é o trabalho muscular anaeróbico, isto é, com déficit de oxigênio (sim, usei frequencímetro para acompanhar a freq. cardíaca)
- musculação para membros inferiores: mesmo esquema, mas com aumento da carga e alternando treino de resistência em uma semana (peso menor e muita repetição) e treino de força na outra semana (muito peso e pouca repetição)

Dia 2
- yoga
- escada normal (mochilão), ritmo tranquilo: 1h e aumentando esse tempo a cada semana. Variando a subida: subindo de lado (simulando a cramponagem francesa), de dois em dois degraus, normal.
- treino no campus board (fiz um em casa...). É um treino super usado para escalada em rocha, que trabalha muito a musculatura das costas, braços abdominais, etc... Beeem eficiente!
- musculação membros superiores (complementando o campus) e cinturão


Dia 3
- pilates

Dia 4
- yoga
- caminhada no parque da cidade, com a mesma mochila do dia 2 (mesmo peso) num trajeto que tem subidas, descidas e parte plana. Pelo menos 1h30’.
- musculação membros inferiores

Dia 5 (aqui o bicho pegou... rs)
- yoga
- campus board
- musculação membros superiores, etc
- treino de explosão na escada (treino anaeróbico): com mochila mais leve (12 kg), sobe e desce os 13 andares como aquecimento. Depois, subida no máximo de intensidade, desce recuperando. Mais uma subida no máximo, desce recuperando... assim, por 5 ciclos (dá uns 30 min). Depois, mais 30 min em ritmo tranquilo, variando a subida (de lado, dois em dois, normal... ). Esse foi punk...
 
Sábado
- descanso

Domingo
- caminhada outdoor, algumas com o pessoal do Papa Trilhas aqui de Botucas, algumas sozinha... Mochilão (variando entre 16 a 19 kg), tempo variando entre 3h a 5h.
- na sequência, puxar 2 pneus de carro normal em um gramado (dá mais arrasto) num circuito com subidas e descidas


Senti como o meu corpo se adaptou aos treinos. Incrível mesmo... o que no começo me fazia muito cansada, hoje faço tranquilamente. Ao mesmo tempo, percebi os limites do meu corpo: não adianta, meus joelhos não aguentam muito mais que 19 kg na mochila. Assim, fui me adaptando ao treino mas sempre respeitando meu corpo. O pior que poderia me acontecer era uma lesão, já que isso impossibilitaria treinar e poderia por em jogo a escalada.


Descobri tb que a descontração muscular (que consegui fazendo yoga e alongamentos) é fundamental para um trabalho físico mais pesado. Senão, a gente só tensiona a musculatura, o que acaba trazendo inflamações e outras lesões. Comecei com dores nos joelhos e ombros mas depois de fisioterapia e descontração, praticamente se resolveu. Fora que, às vezes estava com o corpo tão tensionado e “pilhado” que não conseguia dormir. E acordava um caco no dia seguinte... Tudo isso praticamente acabou depois que dei a importância devida ao relaxamento.


Perguntas que todos fazem: mas vc não treina corrida? Não, não treino. É uma boa opção para melhorar condicionamento, mas usa músculos que não vou usar na escalada. E, mais do que isso, a condromalácea que tenho nos dois joelhos não me permitem.

Sempre gostei de atividades físicas pesadas, mas confesso que desta vez foi tudo muito diferente. Fazer algo com um objetivo muito claro à frente muda bastante a perspectiva dos treinamentos. Minha consciência corporal mudou muito nestes anos, mas aumentou ainda mais nestes meses já que meu foco no treinamento foi total. Comecei a lidar com o corpo de outra maneira: antes eu era muito mais “sargento”, impunha algo e cumpria não importando se tinha dor ou não. Agora, faço diferente: percebo os sinais e os respeito. Vou muito mais na “maciota”... Como resultado, me lesionei menos, compreendi que tenho meus limites (não sou super-herói que pode tudo, sem limites) e mesmo assim meu condicionamento e força aumentaram enormemente! Acho que muito mais do que antes, na minha fase “sargento”... rs.

“Tudo é treino” é uma frase do amigo Juca, gde escalador em rocha, que eu adoro. Pois é isso mesmo: faz parte do treino o foco, a dedicação, a disciplina. Treinar com calor ou frio, perceber se o cansaço é real ou apenas sua cabeça tentando te enrolar, saber até onde ir e vontade... Muita vontade em realizar o que se propôs. Tudo é treino!

Agradecimentos: Ricardo Lima (personal trainer), Equipe da Academia Iron, Viviane Aguiar (Pilates), Grupo Papa trilhas.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Pesquisa: o que motiva pessoas a tomar riscos extremos?


RISK TAKERS

A morte de Jane Wicker, que fazia wing walk e caiu do avião durante um show aéreo na semana passada, fez novamente aparecer a pergunta, o que motiva pessoas a tomar riscos extremos. Há muito tempo se acredita que pessoas que se envolvem em atividades de risco, como skydiving, back-country skiing, etc, buscam sensações, arriscando suas vidas pela descarga de adrenalina em seus corpos. 


 Mas um novo estudo, publicado no “Journal of Personality and Social Psychology”, descobriu que essas pessoas não são todas do mesmo tipo. Alguns participam de atividades de risco como uma maneira de controlar suas emoções e suas vidas.

Os pesquisadores da Universidade Bangor, na Inglaterra, não acreditam que o estereótipo do “buscador de adrenalina” se aplica a todas as pessoas ditas “radicais”, particularmente aqueles que se envolvem em atividades prolongadas e desafiantes, como o montanhismo.
“Quando a pessoa caminha para a base de uma alta montanha e entra na zona de risco, ela não está atrás de adrenalina”, disse Tim Woodman, chefe da School of Sports Health & Exrecise Sciences at Bangor, e autor do estudo. “Normalmente é um desafio pessoal. Nós queremos entender o que motiva esse desafio pessoal.” 



Escalada de montanha é longa e árdua, e não necessariamente causa a sensação de adrenalina. De fato, pesquisas anteriores mostraram que montanhistas se engajam em risco extremo para ajudar no domínio de suas emoções. Estudos mostram que montanhistas tendem a falhar em relacionamentos afetivos, tem dificuldade para descrever suas emoções e tem menos necessidade de intimidade que outras pessoas. Eles também tendem a sentir uma falta de controle na sua vida rotineira.

Os autores do estudo teorizam que os “risk-takers” buscam situações de “caos, estres e perigo” para conseguir o controle de suas emoções e domínio de suas vidas. Uma atividade de alto risco, eles escreveram, “desafia psicologicamente os limites do self de uma maneira que não se pode encontrar mesmo na mais desafiante situação da vida rotineira”.

O estudo incluiu skydivers, que tendem a pontuar mais na questão da busca de sensações (adrenalina), diferente de montanhistas. Incluiu também um grupo de controle, formado por atletas de atividades de baixo risco. Todos os participantes preencheram questionários psicológicos que focavam na busca de sensações, na habilidade de moderar emoções, e “atuação”, que significa ter uma sensação de controle da própria vida.



Skydivers reportaram uma maior necessidade por sensações fortes que montanhistas e o grupo de controle, demonstrando que nem todos os “risk-takers” são motivados pela busca da adrenalina. Ambos montanhistas e skydivers declararam ter grande controle de emoções e “atuação” durante a atividade de risco, diferente do grupo de controle. Isto sugere que atividades de risco exige de seus praticantes o controle de suas emoções como o medo, e deles próprios no controle de seu destino.
Entretanto, o que mais surpreendeu os pesquisadores, foi que as pessoas que se envolvem em atividades de risco acreditam que a vida deve ser preenchida com essas intensas experiências e sentimentos.

“Basicamente pessoas que se envolvem nas mais árduas atividades de alto risco, como montanhismo, o fazem porque tem uma expectativa muito alta sobre o que a vida deve oferecer, ou o que a vida deve ser”, disse Woodman.
O estudo também mostrou que essa sensação de controle sobre suas vidas e emoções se aplica sobre a vida rotineira dessas pessoas quando elas voltam de suas atividades.



“Montanhistas querem empurrar o self ao seu limite em termos de experienciar emoções, e então administrar essa emoção num ambiente extremo”, disse Woodman. “Nós todos temos isso algum grau, dentro de nós; depende de cada um de nós decidir o que constitui nosso Monte Everest e se comprometer completamente com esse desafio”, disse ele.
“Todo desafio que tenha um significado pessoal tem um elemento de risco, portanto risco não é uma palavra ruim. Risco é necessário para qualquer objetivo significativo – para todas as pessoas”, complementa.

Texto de Laurie Tarkan, jornalista que escreve para o New York Times, entre outras revistas e websites.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

As muitas montanhas da vida


Às vezes somos inundados por informações que se transformam em emoções.

Neste contexto, me preparo física e emocionalmente para um grande desafio em minha vida, escalar uma montanha com mais de 8.000m de altitude, o Cho Oyu. Essas montanhas, chamadas de “eighthounsanders”, se encontram todas no Himalaya e existem apenas 14. O mais alto e famoso, claro, Mt Everest com seus 8.850m. O Cho Oyu é o sexto pico mais alto do mundo, com 8.201m. É considerado o menos complicado tecnicamente e muitos montanhistas usam essa montanha para “debutar” no mundo dos 8.000m.
Escalada do Cho Oyu

Escalada do cho Oyu


Claro que a primeira coisa em que pensamos é no preparo físico. São horas, todos os dias, dedicadas a por o corpo em sua melhor forma física. Isso exige muita, muita força de vontade, disciplina, esforço e até criatividade... “como posso fortalecer aquele músculo do antebraço que vou usar na parte técnica? Aaaaahhh, vou fazer barra usando duas cordas na vertical!”.

O lado emocional da escalada é muito menos abordado, mas acho que é tão importante quanto. Claro que todo montanhista que vai para uma escalada de uma montanha de 8.000m sabe o que está fazendo e sabe que existe um risco de vida envolvido. Mas sempre parece que essa realidade fica longe, a quilômetros de distância. De fato, quando me inscrevi na expedição, vi as fotos da escalada e vídeos na internet, achei tudo maravilhoso e me visualizei no cume, num dia perfeito de sol. Já fiquei naquela ansiedade do tipo “putz, é só em agosto!”.
Então, a realidade começou a aparecer, quando recebi os muitos formulários para preencher. Formulários médicos, contatos de familiares para serem avisados caso aconteça algo, seguro, contrato de risco... Mas o mais punk foi, sem dúvida, o “body disposal form”, onde vc tem que preencher o que quer que seja feito com seu corpo no caso da morte na escalada. Incrível o choque que isso provoca... ter que pensar, seriamente, na morte.

O budismo e outras filosofias orientais já deixam muito claro o conceito de Impermanência, isto é, nada é permanente. Nossa vida está dentro desse pacote. Mas principalmente nós, ocidentais, parece que nem pensamos a respeito... vivemos nossos dias como se fôssemos viver ad eternum... Na verdade, sabemos que não é bem assim.

Comecei a pensar seriamente sobre o assunto, da Impermanência. A conclusão é até simples: viver da melhor maneira possível o momento, a vida. Nem que, para chegar a isso, seja preciso alguma mudança que seja dolorosa, mas o turbilhão provocado por ela vai passar e será para melhor. Como tomar consciência desse fato já mudou algumas atitudes em minha vida! Coisinhas simples, como passar o Dia das Mães com minha mãe, irmã (acabou de ser mamãe tb!) e cunhado em São Paulo, dar mais atenção aos amigos, perdoar uns tantos outros, enfim... muitas coisas e atitudes bacanas, já que na realidade hoje posso simplesmente atravessar a rua e um doido não me respeitar. Nem é preciso falar do Cho Oyu...

Todas essas reflexões podem levar a atitudes positivas, como citei, ou negativas – ficar com medo de tudo e parar no tempo. Mas se a gente não sair e viver, de que vale tudo isso?

Esta semana tive duas notícias e cada uma me emocionou de maneiras diferentes. A primeira, maravilhosa, de que a Karina Oliani chegou ao cume do Mt Everest e voltou em segurança. Foi um sonho que ela teve, conseguiu transformar em realidade, fazendo o melhor que pode em cada situação. Isso é bacana demais... Senti aquele uhuuuuu no peito e isso me pilhou ainda mais para seguir em meus treinos para o Cho Oyu. Só pensava “nossa, daqui a pouco sou eu”! A outra não tão boa, que o montanhista Parofes que, apesar de não conhecer pessoalmente (apenas virtualmente) e por quem tenho a maior simpatia, está com leucemia. Sempre acho incrível o poder que o ser humano tem de lutar nas adversidades, com garra, determinação. Me fez novamente pensar na vida, na Impermanência de tudo e como nossa atitude poder ser determinante. Troquei alguns e-mails, ele me escrevendo do hospital (é mole?) e mantendo a mesma atitude positiva.

Sim, a vida é curta... O ponto é que não sabemos o quanto ela vai durar. Assim, vamos viver! Repensar a vida, ver o que é um peso e o que nos traz satisfação. O que for um peso, pensar em como solucionar o problema... sem arrumar bilhões de desculpas que travem qualquer iniciativa. Outra coisa, sabe aquela estória do amor incondicional (que muita gente acha breguinha e que é coisa de livro de auto-ajuda)? Isso é real, e devemos usar com tudo e todos... desde a natureza, seu vizinho e vc mesmo. Fazer pequenos gestos sem esperar nada em troca (o que no yoga chamamos de “ação desapegada da ação”, isto é, sem esperar por resultados diretos a vc) tb fazem parte... Doar brinquedos, roupas, sangue, órgãos, medula. Penso no amigo Parofes e tantas outras pessoas que podem ser ajudadas a partir de um gesto desses...

Por isso, saia do computador e vá passear! Faça o que quer que vc realmente goste, agora, pra sentir esse gostinho. Como disse esse meu amigo montanhista, fique menos no facebook e mais na montanha!
Lisete no cume do Kilimanjaro
Para fechar com chave de ouro minhas elocubrações mentais, recebi de uma amiga-irmã desta vida este vídeo, que me fez pensar em mais uma coisinha, tb já sabida dos orientais (é, os caras são bons...): todo o Universo está emaranhado, como numa rede. Todos os pontos estão conectados, nós criamos essas conexões. Mas estão em equilíbrio. E basta uma pena que seja, para que essas conexões se desfaçam.


Sonhe! São os sonhos e sua concretização que nos dão alegria de viver.

Grande abraço a todos!