quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Em Katmandu


Olá amigos!

Já estamos aqui em Katmandu, eu e Agnaldo chegamos dia 26 e o Lui chegou antes e aproveitou para fazer um trekking.
Sempre gosto de chegar nesta cidade maluca. Acho que é qdo tenho que me desconectar do nosso conhecido mundo ocidental e entrar em outra maneira de viver, que é aqui na Ásia.
Esta é minha sexta visita ao Nepal, o que me deixa muito mais tranquila para andar nas
coisas de Katmandu
ruas labirínticas do Thamel, o bairro turístico da cidade, não perco muito tempo procurando restaurantes, lojas, etc. Já me sinto à vontade aqui, e toda essa confusão e extremos não me chocam mais.

Nestes dias, ficamos principalmente atrás de coisas que faltavam em nossa lista de equipamentos, remédios, coisas de supermercado. É incrível como essas listas nunca terminam! Qdo acho que terminei, me lembro de mais um item. Nada pode faltar, pois não teremos como comprar nada depois que entrarmos no onibus rumo ao Tibet, no dia 31. Iremos escalar a rota “normal” do Cho Oyu, pelo lado tibetano.

separando equipamentos na casa do Rinji
Hoje encontramos os guias da IMG (International Mountain Guides), Mike e Peter. Os dois são super simpáticos e experientes. Eles checaram todos os equipamentos de cada pessoa da expedição, justamente para que nada falte, ou que vá coisas a mais e que não serão usadas na montanha. Sempre essas questões de peso e volume são críticas em qualquer expedição, pois disso depende o número de pessoas / transporte para carregar tudo até o acampamento base. Seremos 12 escaladores.

Fomos depois para Boudhinath Stupa, um monumento budista que sempre adoro visitar. Tive enfim um “dia de turista”, só curtindo a vida que literalmente roda em volta da grande stupa, com os “Olhos de Buda” nas quatro direções (N, S, L, O), os olhos que tudo veem.


Amanhã a noite teremos um jantar, para conhecer os outros escaladores e para conversar sobre a logística da viagem e da escalada.

Nossa saída para o Tibet está marcada para o dia 31, bem cedo. Vou escrever novamente antes disso, contando as últimas novidades antes de seguir viagem.

Grande abraço a todos e obrigada por toda a energia positiva!

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Falta pouco para começar a expedição ao Cho Oyu!


Olá amigos!

Agora falta pouco pra começar a expedição ao Cho Oyu.

Foram 6 meses de preparo físico e emocional pra encarar essa escalada. Me sinto bem, motivada e, principalmente, feliz. Vai ser a realização de um sonho, antigo e que achei que não conseguiria realizar. Vou com a certeza de que tudo que acontecer será bom, me trará experiências que eu não teria de outra forma.

Hoje tenho a impressão que toda minha vida se afunilou para este exato momento. Todas as experiências, escolhas, tudo. É engraçado isso... mas ao mesmo tempo dá a certeza de que estou no caminho certo.

Treino preparado pelo Ricardo
Sei que não vai ser fácil, mas isso eu já sabia qdo fiz a escolha de escalar essa montanha. Tudo foi feito com muita consciência da realidade, do que me espera lá, das consequências de uma escalada de uma montanha com mais de 8.000m. E é claro que tudo isso é que dá um gostinho especial a essa montanha.

Agradeço de coração a algumas pessoas que foram fundamentais nestes últimos meses: Ricardo Lima, meu personal, que conseguiu fazer um treinamento incrível em 6 meses; Viviani, professora de Pilates e apaixonada pelo método, conseguiu usar os exercícios que só via no livro nas minhas aulas e fazer esta aluna “suar a camisa” literalmente; ao Manoel Morgado por toda a experiência adquirida nesses últimos anos, por acreditar em mim e pelos empréstimos de equipos; equipe da Academia Iron, me deu o maior apoio em tudo, com dicas, correções, idéias e conversas, qdo eu achava que o treino não tinha sido assim tão bom; ao grupo Papa Trilhas, me pegaram pela mão e me levaram a fazer as trilhas de Botucatu e região, me ajudando com meus treinos
Teletubs: empréstimo do Irivan
outdoor; à Sônia e Bethinha, sem elas a cabeça e as emoções estariam completamente fora de sintonia; Dr. Antônio Masseo, que cuidou dos meus joelhos como ninguém, a minha família que apesar de não entender muito bem as razões disso tudo, aceitou e me apoiou.

eu e Cau, em Itajubá, num dia de treino outdoor
Agradeço tb a todos os amigos que me deram tanta força, através de conversas, mensagens, ligações. Se eu fosse escrever o nome de todos aqui, ia ficar grande demais... se sintam abraçados, de coração.
com Eliseu e Ed, escalando no Bauzinho
com o grupo Papa Trilhas

Na madrugada de sábado para domingo embarcamos, eu e o parceiro Agnaldo. Mandaremos notícias sempre que possível... a comunicação não será tão simples, mas vamos dar um jeito.

Agora é foco total para a Deusa Turqueza...

Grande abraço a todos!!!

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Treinamento para a escalada do Cho Oyu


Olá amigos!

Agora falta pouco para começar a expedição ao Cho Oyu! Dia 25 de agosto sairemos (eu e Agnaldo) do Brasil rumo a Katmandu, Nepal, para encontrar com o restante do pessoal. Claro, a ansiedade está aumentando, assim como as expectativas sobre a escalada. Mas estou confiante de que vai dar tudo certo... Não importa tanto o cume. O importante é fazer uma boa escalada e chegar inteira de volta ao Brasil. Mas é claro que quero o cume!!!

Muita gente me pergunta sobre meu treinamento nestes meses, como preparação para a escalada. Assim, resolvi escrever este post sobre isso.

Mas desde já alerto a todos os leitores: NÃO TENTEM FAZER ESTE TREINAMENTO POR CONTA PRÓPRIA. TENHAM SEMPRE UM PROFISSIONAL QUALIFICADO PARA DAR UM TREINAMENTO QUE SE ENCAIXE ÀS SUAS NECESSIDADES E AO SEU CORP   
Este treinamento me foi passado pelo personal trainer de São Paulo, Ricardo Lima, que é especialista em preparar pessoas para encarar a escalada de montanhas.

A idéia era melhorar meu condicionamento em 6 meses, para aguentar a escalada de uma montanha de 8.000m. Eu já estava com um bom condicionamento, resultado de dois anos e meio voltados totalmente às montanhas, fazendo trekkings e escaladas. Assim, tivemos duas fases: a primeira, um fortalecimento geral do corpo e trabalho aeróbico com carga (mochila pesada); a segunda fase teve ênfase no aumento de cargas, trabalho de explosão e resistência. Tudo isso para criar uma boa base física, chave para uma boa performance na hora do “rock’n roll” de verdade...

Assim, minha rotina na primeira fase foi:

Dia 1 e dia 4
- yoga 

- esteira inclinada (começando com 7% e aumentando semanalmente até 11% com picos de 15%) com mochila pesada (comecei com 12 kg e tb aumentei a cada 10 dias o peso, até chegar em 19 kg) por uma hora
-tranport, muito rápido (parece um trotinho) por 20 min
-musculação para membros inferiores e abdominais (praticamente só exercícios funcionais, onde não uso dos aparelhos tradicionais de musculação, mas sim bolas, elásticos, etc).

Dia 2 e dia 5
- yoga
- escada: subir e descer 13 andares com a mesma mochila usada na esteira, por 1h em ritmo tranquilo
-musculação para membros superiores, costas e cinturão (tb usando ex. funcionais)

Dia 3
- Pilates

Sábado: descanso

Domingo: caminhada outdoor ou bike (treino mais longo)

Os exercícios funcionais acabam trabalhando mais grupos musculares ao mesmo tempo, qdo comparado aos aparelhos de musculação tradicionais. Além disso, meu objetivo não era hipertrofia muscular... Achei que dão um resultado muito bom.

Percebi nessa primeira fase que eu estava ficando muito cansada ao longo da semana. Conversando com alguns profissionais da área, me sugeriram suplementar minha alimentação com proteína. Não sou vegetariana, mas mesmo assim resolvi experimentar e o resultado foi muito ótimo. Já não sentia aquela fome animal depois dos treinos, e percebi que esse desgaste e cansaço melhoraram muito, o que possibilitou que eu levasse os treinos na mesma intensidade, todos os dias.

Depois de alguns meses, um dia bateu um pânico: será que estarei preparada o suficiente? Será que estou treinando corretamente? Será que não preciso de mais??? Imagino que essas perguntas sempre venham na cabeça de atletas com algum objetivo claro à frente. Mas olha, se não fosse o Ricardo pra me tranquilizar, acho que tinha surtado... rs.

Passamos então à segunda fase do treinamento, para (segundo o Ricardo) os ajustes finos...

Dia 1
- yoga
- explosão no transport: depois de aquecer, dar o máximo de intensidade por alguns
segundos, recuperação de alguns segundos, outro ciclo de explosão, recuperação... são 9 “tiros”, com o tempo de máxima intensidade aumentando a cada tiro, e o tempo de recuperação diminuindo. Três ciclos desses no treino, que ao todo dura 45 min. O objetivo é o trabalho muscular anaeróbico, isto é, com déficit de oxigênio (sim, usei frequencímetro para acompanhar a freq. cardíaca)
- musculação para membros inferiores: mesmo esquema, mas com aumento da carga e alternando treino de resistência em uma semana (peso menor e muita repetição) e treino de força na outra semana (muito peso e pouca repetição)

Dia 2
- yoga
- escada normal (mochilão), ritmo tranquilo: 1h e aumentando esse tempo a cada semana. Variando a subida: subindo de lado (simulando a cramponagem francesa), de dois em dois degraus, normal.
- treino no campus board (fiz um em casa...). É um treino super usado para escalada em rocha, que trabalha muito a musculatura das costas, braços abdominais, etc... Beeem eficiente!
- musculação membros superiores (complementando o campus) e cinturão


Dia 3
- pilates

Dia 4
- yoga
- caminhada no parque da cidade, com a mesma mochila do dia 2 (mesmo peso) num trajeto que tem subidas, descidas e parte plana. Pelo menos 1h30’.
- musculação membros inferiores

Dia 5 (aqui o bicho pegou... rs)
- yoga
- campus board
- musculação membros superiores, etc
- treino de explosão na escada (treino anaeróbico): com mochila mais leve (12 kg), sobe e desce os 13 andares como aquecimento. Depois, subida no máximo de intensidade, desce recuperando. Mais uma subida no máximo, desce recuperando... assim, por 5 ciclos (dá uns 30 min). Depois, mais 30 min em ritmo tranquilo, variando a subida (de lado, dois em dois, normal... ). Esse foi punk...
 
Sábado
- descanso

Domingo
- caminhada outdoor, algumas com o pessoal do Papa Trilhas aqui de Botucas, algumas sozinha... Mochilão (variando entre 16 a 19 kg), tempo variando entre 3h a 5h.
- na sequência, puxar 2 pneus de carro normal em um gramado (dá mais arrasto) num circuito com subidas e descidas


Senti como o meu corpo se adaptou aos treinos. Incrível mesmo... o que no começo me fazia muito cansada, hoje faço tranquilamente. Ao mesmo tempo, percebi os limites do meu corpo: não adianta, meus joelhos não aguentam muito mais que 19 kg na mochila. Assim, fui me adaptando ao treino mas sempre respeitando meu corpo. O pior que poderia me acontecer era uma lesão, já que isso impossibilitaria treinar e poderia por em jogo a escalada.


Descobri tb que a descontração muscular (que consegui fazendo yoga e alongamentos) é fundamental para um trabalho físico mais pesado. Senão, a gente só tensiona a musculatura, o que acaba trazendo inflamações e outras lesões. Comecei com dores nos joelhos e ombros mas depois de fisioterapia e descontração, praticamente se resolveu. Fora que, às vezes estava com o corpo tão tensionado e “pilhado” que não conseguia dormir. E acordava um caco no dia seguinte... Tudo isso praticamente acabou depois que dei a importância devida ao relaxamento.


Perguntas que todos fazem: mas vc não treina corrida? Não, não treino. É uma boa opção para melhorar condicionamento, mas usa músculos que não vou usar na escalada. E, mais do que isso, a condromalácea que tenho nos dois joelhos não me permitem.

Sempre gostei de atividades físicas pesadas, mas confesso que desta vez foi tudo muito diferente. Fazer algo com um objetivo muito claro à frente muda bastante a perspectiva dos treinamentos. Minha consciência corporal mudou muito nestes anos, mas aumentou ainda mais nestes meses já que meu foco no treinamento foi total. Comecei a lidar com o corpo de outra maneira: antes eu era muito mais “sargento”, impunha algo e cumpria não importando se tinha dor ou não. Agora, faço diferente: percebo os sinais e os respeito. Vou muito mais na “maciota”... Como resultado, me lesionei menos, compreendi que tenho meus limites (não sou super-herói que pode tudo, sem limites) e mesmo assim meu condicionamento e força aumentaram enormemente! Acho que muito mais do que antes, na minha fase “sargento”... rs.

“Tudo é treino” é uma frase do amigo Juca, gde escalador em rocha, que eu adoro. Pois é isso mesmo: faz parte do treino o foco, a dedicação, a disciplina. Treinar com calor ou frio, perceber se o cansaço é real ou apenas sua cabeça tentando te enrolar, saber até onde ir e vontade... Muita vontade em realizar o que se propôs. Tudo é treino!

Agradecimentos: Ricardo Lima (personal trainer), Equipe da Academia Iron, Viviane Aguiar (Pilates), Grupo Papa trilhas.