quinta-feira, 4 de setembro de 2014

O Bicho da Montanha


Como saber se o bicho da montanha te pegou?

Será que vc já virou um ser da montanha? Será que está ainda no processo? Como saber?
campo base do Cho Oyu

Bom, temos aqui uma série de questões que podem elucidar em que etapa vc está desse processo (que aviso desde já, não há volta desse processo! Afinal, vc conhece algum ex-ser da montanha? Não né...). Paremos de enrolação e vamos às questões.

1- vc acha um absurdo seu amigo, irmã, familiar gastar uma grana numa calça jeans de marca, mas não se importa nem um pouco em gastar mais do que isso num casaco de pena de ganso

2- achar a coisa mais linda do mundo o casaco de pena de ganso, assim como seu saco de dormir de pena

3- calçados: sonhar em ter aquela sapatilha de escalada, ou aquela bota dupla ou tripla; e qdo finalmente consegue, querer mostrar pra todo mundo (e ninguém dá a menor bola, lógico)

4- equipos: achar a coisa mais fantástica sua corda (é a melhor, mais bonita, etcetcetc), suas costuras, ice axe, mochila, roupas de montanha, head lamp. Além disso, ficar a par das últimas novidades tecnológicas para as roupas e equipos

5- adorar contar para as outras pessoas suas aventuras, principalmente as roubadas. Qdo tem alguém de montanha com vc, é um deleite... cada um contando uma pior que a outra. Qdo é para pessoas normais... eles te olham com aquela cara de dó...
Serra da Mantiqueira

6- ficar ofendidíssimo qdo te perguntam: vc faz rapel????

7- qdo costura não é o que a costureira faz, qdo io-io não é o brinquedo redondinho com cordinha, qdo sapatilha não é de ballet, qdo mala é mala e mochila é outra coisa, tenda é tenda e barraca é outra coisa, cadeirinha não é para sentar, aclimatação não tem nada a ver com ar condicionado, agarra tb não é o que vc está pensando...

8- qdo vc sabe o que é diamox, dexa, jumar (não é Gilmar escrito errado...), cipro, azitro, campus board, finger board, crampon, chapeleta, magnésio, climb on, oxímetro, altímetro, suunto, crashpad

9- qdo vc não dá dica – vc dá um beta, qdo “tô na minha” não significa “tô tranquilo”, “chupa!” significa recolher a corda, “lance psicológico” não tem nada a ver com terapia, ogro não é o Shrek

Cuscuzeiro
10- gastar uma grana numa expedição e continuar com seu carrinho de sempre

11- ficar com as mão suando ao ver um vídeo de escalada animaaaaaal, além de fazer comentários sobre a técnica do escalador. Ficar gritando feito bobo k’mooooon!!!! pro vídeo...

12- achar genial quem inventou o pee bootle, o saco de dormir tipo múmia, o hand warmer, o goretex, o thermarest, o canivete suíço (aliás, ser apegado ao seu canivete tanto qto à sua corda), fogareiro multifuel



13- perceber que seus conceitos sobre higiene estão mudando... melhor não entrar em detalhes aqui...

14- não ter o menor problema em falar sobre suas necessidades fisiológicas com parceiros de escalada

15- não dar muita bola pra refrigerantes qdo está na cidade, mas achar simplesmente DIVINA aquela coca-cola que apareceu no acampamento não se sabe vinda de onde. E tomar de um gole só

16- começar a comparar o peso da sua mochila com a dos outros (óooo, o cara tá forte!) e fazer competição pra ver quem está com a saturação mais alta (mesmo qdo o guia diz pra não fazer isso)

escalada do Elbrus, Rússia
17- ficar muuuuuito, mas muuuuuito P da vida qdo não consegue fazer aquela via ou aquela montanha. Colocar a respectiva na sua lista, logo em cima, pra resolver logo essa pendenga. Ficar planejando qdo vai quitar essa dívida...

18- vc não perde uma noite de sono pra ir na balada, mas fica sem dormir pra ir escalar

19- as únicas marcas de roupa que vc conhece são roupas e equipos de escalada

20- qdo finalmente sua família e amigos páram de achar vc estranho e simplesmente dizem: ah, ele (a) é assim mesmo... gosta dessas coisas...

Se vc se identificou com pelo menos 15 das questões acima, já era... vc já é um bicho da montanha. Menos que isso, vc está no processo... qto mais questões vc se identificou, mais está próximo a entrar para o clube. Mas se vc não se identificou com nada disso e achou tudo um absurdo, yeah! Fique tranquilo, pois o bicho da montanha ainda não te mordeu...
Ainda...




quarta-feira, 20 de agosto de 2014

MUDAR, SEMPRE



Se eu for pensar em uma palavra que possa representar minha vida, essa palavra é MUDANÇA. Hoje olho para trás e vejo o quanto mudei, seja fisicamente ou pessoalmente. Quem me conhece mais de perto sabe que parei de contar as vezes que mudei de casa quando cheguei na 25°... fora a época que, trabalhando para a Morgado Expedições, simplesmente não tive casa. Já trabalhei como engenheira, instrutora de Yoga, já tive academia de escalada. Pedalei, corri, nadei, joguei vôlei, polo aquático, escalei rocha e montanha.
O que me empurrava para essas mudanças todas era sempre uma certa insatisfação: sempre acreditei que temos que trabalhar no que nos satisfaça a alma e que a vida tem inúmeras possibilidades. E eu sempre busquei a melhor possível. Mas, o incerto faz parte, e quando acreditei que tinha “estabilizado”, trabalhando como guia de trekking e de montanha, veio mais uma vez o furacão da mudança e fez mudar meus planos novamente.

Questões mais sutis que sempre vem com uma mudança são mais difíceis de se ver. Assim, somente depois da escalada do Cho Oyu (que teve um enorme impacto na minha vida) é que os rumos começaram a ficar mais claros. Há muitos anos atrás tive uma idéia de trabalhar com educação ao ar livre e de repente esse projeto voltou à minha mente. Em 2008, quando comecei a pensar nisso, não sabia como o projeto poderia sair do papel e virar algo concreto. Creio de precisei de todos esses anos e todas essas vivências trabalhando como guia nas montanhas para que o quebra cabeça se encaixasse e fizesse sentido.
Procurei saber mais sobre educação ao ar livre e pessoas, do nada, apareciam para me dar essas informações. Acabei sabendo de um curso da Outward Bound Brasil, o FEAL (Fundamentos de Educação ao Ar Livre) e decidi que iria fazê-lo. E assim foi. No dia 15 de julho, iniciei mais uma jornada onde não sabia bem o que iria acontecer.

Logo de cara conheci o Emerson, que me deu carona de São Paulo até Itanhandu, o ponto de encontro. Depois de 5 minutos de conversa deu pra perceber que tínhamos várias coisas em comum, mas principalmente gostar da vida ao ar livre... fora a engenharia... rs. Essa sensação aconteceu com todos os participantes... todos nós tínhamos esse “algo” em comum. Me senti novamente em casa.
O curso tinha o formato de expedição. Seriam 15 dias de travessia na Serra da Mantiqueira, onde iríamos carregar tudo (tivemos apenas um reabastecimento de comida). Éramos 8 alunos e 3 instrutores. Eu sabia que a parte física não seria grande problema, já que estou acostumada a carregar peso, andar muito e acampar. E assim foi...
Mas o que eu não esperava eram as mudanças internas. 

Eu estava como aluna, e não como guia. Eu não tinha controle ou decisão sobre várias questões que normalmente tenho, nas expedições que organizo. Todos tinham que trabalhar em conjunto, uma verdadeira equipe no sentido mais profundo dessa palavra. E cada um de nós teve que lidar com pessoas diferentes, com lideranças diferentes. E tudo de maneira democrática. Foi um exercício enorme de flexibilização, tolerância, de aceitação das diferenças, de empatia e compaixão. Mas tudo isso não aconteceu de um momento para outro... Foi acontecendo, ao longo dos dias e das roubadas.

Logo no começo aprendemos sobre orientação e navegação. No começo os instrutores nos acompanhavam mais de perto. Mas eis que no quarto dia, uma série de erros na navegação fez com que nos perdêssemos. Sabíamos que estávamos no rumo certo, mas... cadê a trilha???? Estava escurecendo, esfriando. O stress aumentando... alguns cansados, outros nem tanto. Cada um tinha uma opinião, às vezes todos queriam falar ao mesmo tempo. Alternamos a frente, tentamos varar mato. 

E nada. Pior, os instrutores estavam lá juntos na roubada e não davam nenhuma dica de onde estava a trilha! Até esse dia, eu estava naquela
“o que estou fazendo aqui”, pois essa organização do “tudo pelo coletivo” estava me deixando maluca. Estava considerando seriamente ir embora quando o carro do reabastecimento chegasse. Mas funciono bem sob pressão... e esse dia do “perdidos na selva” foi fundamental para que eu ficasse.
Conseguimos sair da roubada quando percebemos que nem sempre temos que seguir exatamente um azimute... às vezes, seguir pela direção predominante da trilha é melhor. Ainda mais a noite, sem referências. Às vezes é preciso inventar... abrimos um leque de cinco pessoas, num campo aberto, para ver se achávamos a trilha. 

Às vezes é preciso ter alguém tomando decisões de forma autocrática e mais “mandona”, e às vezes também é preciso ouvir os outros. Somando tudo isso conseguimos chegar numa estradinha, que não conseguimos a princípio identificar. Mas a Olívia se ligou, e finalmente sabíamos exatamente onde estávamos. Às 9:30 h da noite chegamos. Alívio misturado com cansaço... montamos acampamento e nossos instrutores Helder, Fabi e Moaci fizeram nosso jantar nesse dia. Apesar de simples, foi um banquete! Me lembro do sopão com purê de batata para ficar mais grossinho e do chocolate quente com um pouco de curau em pó. Só quem passa por perrengues vai me entender... rs.
No dia seguinte eu estava exausta, mentalmente. Precisava ficar sozinha. E fiquei. Deixei minha mente processar os acontecimentos... e percebi o quanto eu estava sendo dura e inflexível ao longo de todos os dias. O quanto eu estava me isolando e não me doando ao grupo, como deveria ser. Era meu dia de dar aula (cada um deu uma aula, assunto a escolher) e dei uma aula de Yoga. Foi quando consegui me conectar com o lugar e com cada um. Decidi ficar, definitivamente, e sair do meu modus operandi costumeiro. Dei o passo para além da minha zona de conforto comportamental. 
A partir desse ponto, abri minha mente para todos os acontecimentos e experiências. Pude aceitar de coração todas as vezes que o Rodrigo falava em “compartilhar” (no começo eu não entendia, para que compartilhar tanto???), aceitar as diferenças de organização e decisões (Thais, Olívia e Larissa), as diferentes possibilidades e idéias originais (Tomás), o bom humor logo de manhã (Bianca) e estreitar mais a amizade com quem tive afinidade (Emerson). Pude também entender o papel de educador, tão diferente de guia e de professor.
Voltar de uma expedição sempre é difícil. 


Ter que encarar a realidade, não ter os amigos da montanha por perto e entrar nessa vida moderna complicada é um esforço. Voltei diferente, com certeza. Sinto que deixei para trás uma armadura que me mantinha afastada das pessoas. Me sinto mais paciente e compassiva, e espero que mais flexível e tolerante. Senti na pele o que é uma atividade experiencial, e rebobinando a fita de todas as minhas experiências na montanha consegui extrair delas muito mais aprendizados, e mais profundos. Mas sei que ainda há muito mais a aprender...
Mais uma vez mudei. E resolvi ficar em Botucatu, minha terrinha, para trabalhar com educação ao ar livre com adolescentes. Voltei com um programa pronto na minha cabeça. Voltei com mais certeza no meu caminho... e que seja como educadora.
Agradeço de coração à OBB, por compartilhar de sua filosofia com todos aqueles que tem sede de aprendizados. Agradeço aos instrutores Helder, Fabi e Moaci S2 pelos ensinamentos e paciência. E a cada um dos novos “melhores amigos de infância” que tive o prazer de conhecer, de compartilhar essa experiência. Vocês me ajudaram a crescer.

sexta-feira, 28 de março de 2014

Mal de Altitude, HAPE, HACE


MAL DE ALTITUDE

O mal da montanha, também conhecido como mal de altitude ou AMS (Altitude Mountain Sickness), é uma condição patológica relacionada com os efeitos da altitude em humanos, causada por uma baixa taxa de oxigênio. Ocorre normalmente acima dos 2400 metros. Muitas vezes as pessoas não levam isso a sério, quando planejam ir em uma escalada ou mesmo caminhada em altitude. Mas é um assunto extremamente importante e quanto mais informações sobre isso, melhor.

É difícil determinar quem será afetado pelo mal de montanha, uma vez que não há fatores específicos relacionados a quem vai sofrer da doença. Pessoas bem condicionadas fisicamente podem sofrer os sintomas, assim como pessoas não tão bem preparadas. Contudo, a grande maioria das pessoas é capaz de subir até aos 2400 m sem dificuldade.

Vamos entender melhor a questão do “ar rarefeito”. A porcentagem de oxigênio no ar é de 21%, e permanece praticamente inalterada até os 21.000 m. No entanto, é o número de moléculas de oxigênio, por determinado volume, que cai com aumentos de altitude – isto é, o ar é menos denso. Para exemplificar: vamos supor que na inspiração enchemos os pulmões com o volume de 1 litro de ar. No nível do mar ou em altitude, encheremos os pulmões com esse mesmo volume, 1 litro. Mas na altitude, como o ar é menos denso, o número de moléculas de O2 é menor para aquele volume de 1 litro de ar. Assim, teremos menor disponibilidade de moléculas de O2 nos pulmões... Consequentemente, a quantidade disponível de oxigênio para manter a agilidade mental e física diminui.

Os sintomas do mal de altitude incluem fadiga, dores de cabeça, enjôo, tonturas e distúrbios do sono. Aumento na frequência cardíaca e frequência respiratória é uma adaptação normal de nosso corpo ao aumento de altitude, e não deve ser relacionado, de modo geral, com o AMS.
Subida lenta no Aconcagua

Alguns fatores podem contribuir para o AMS. A desidratação é um desses fatores. Em altitudes elevadas, nosso corpo perde muita água e uma das principais preocupações do montanhista é a ingestão de líquidos. Em média, tomamos mais de 4 litros de líquidos num dia normal de escalada em montanha. A taxa de subida, altitude atingida, intensidade da atividade física em altitude elevada, bem como a susceptibilidade individual, são outros fatores importantes a serem considerados.

Todos já devem ter ouvido falar sobre aclimatação... É aqui que entra a taxa de subida, que deve ser considerada quando vc faz o planejamento logístico da escalada de uma montanha. A não ser em casos extremos, deve-se seguir a regrinha: climb high, sleep low (suba alto, durma baixo). Numa boa logística de aclimatação, considera-se subir no máximo 600 m (desnível vertical) no dia. Nessa nova altitude, deve-se permanecer ao menos duas noites para que seu corpo se adapte. Isso não significa ficar na barraca o dia seguinte inteiro, mas sim subir um pouco mais, o que chamamos de “caminhada de aclimatação”, e voltar a dormir na altitude alcançada. Assim, por exemplo, vc chegou a 3.600 m. No dia seguinte, se estiver se sentindo bem, é recomendável uma caminhada onde alcance uma altitude um pouco maior, por exemplo 3.900 m. Mas deve dormir novamente a 3.600m. Por isso é que se diz que a doença das alturas geralmente ocorre após uma subida rápida... é quando não se levou em consideração a aclimatação e o corpo não teve esse tempo de adaptação à nova altitude.
Lisete com "aquela" dor de cabeça

Na maioria destes casos, os sintomas são temporários e normalmente diminuem com a adaptação à altitude. Os sintomas geralmente manifestam-se de seis a dez horas após a subida (quando vc chegou a uma nova altitude) e, geralmente, desaparecem em um ou dois dias. Portanto, se alguém apresentar os sintomas, essa pessoa não deve ganhar altitude. Deve sim permanecer na mesma altitude até os sintomas desaparecerem. Se os sintomas se agravarem (dor de cabeça cada vez mais intensa, vômito, perda do equilíbrio), essa pessoa deve ser levada para uma altitude mais baixa o mais rápido possível.

O mal de montanha pode evoluir para um quadro bastante grave, o edema pulmonar de altitude (HAPE ou High Altitude Pulmonary Edema) ou um edema cerebral de altitude (HACE ou High Altitude Cerebral Edema), ambos potencialmente fatais. Isso normalmente acontece quando uma pessoa com os sintomas do AMS continua a ganhar altitude ou quando os sintomas do AMS se agravam e a pessoa não desce imediatamente.

No edema cerebral em altitude há o acúmulo fluidos nessa região, e quase sempre se inicia a partir do Mal de Altitude agudo. Sintomas normalmente inclui aqueles do AMS (dores fortes de cabeça, náusea, vômito, insônia, fraqueza, perda de equilíbrio…) além de perda da coordenação e diminuição do nível de consciência incluindo desorientação, perda da memória, alucinações, comportamentos irracionais. Os perigos do HACE são acentuados pela tendência das vítimas em negar ter qualquer problema. Elas geralmente não recebem tratamento até realmente colapsar ou ter sintomas tão sérios que obriguem outros a intervir.

O HAPE também se inicia, geralmente, a partir do AMS. Há o acúmulo de líquido nos pulmões. Os sintomas principais são: dificuldade em respirar em descanso, tosse (pode ter secreção), muita fadiga.

Tanto o HAPE quanto o HACE pode progredir rapidamente e muitas vezes é fatal, se não houver nenhuma atitude no sentido de reverter essas doenças.

Subir lentamente é a melhor maneira de evitar a doença das alturas. Para isso, é preciso um bom planejamento para sua escalada ou trekking em altitude, considerando dias de descanso para a aclimatação.
Uma boa aclimatação vai ajudar vc a chegar no cume!
Subida do Mont Blanc

A administração de oxigênio e medicamentos podem temporariamente aliviar os sintomas e facilitar a descida da vítima, que é absolutamente necessária por ser a única ação capaz de reverter o HACE ou HAPE. Bolsas hiperbáricas são muito eficientes em conjunto com medicamentos, mas não revertem o quadro dessas doenças. São mais uma ferramenta para aliviar os sintomas da doença e facilitar a descida da vítima. O único tratamento confiável é: DESCER!