quarta-feira, 20 de agosto de 2014

MUDAR, SEMPRE



Se eu for pensar em uma palavra que possa representar minha vida, essa palavra é MUDANÇA. Hoje olho para trás e vejo o quanto mudei, seja fisicamente ou pessoalmente. Quem me conhece mais de perto sabe que parei de contar as vezes que mudei de casa quando cheguei na 25°... fora a época que, trabalhando para a Morgado Expedições, simplesmente não tive casa. Já trabalhei como engenheira, instrutora de Yoga, já tive academia de escalada. Pedalei, corri, nadei, joguei vôlei, polo aquático, escalei rocha e montanha.
O que me empurrava para essas mudanças todas era sempre uma certa insatisfação: sempre acreditei que temos que trabalhar no que nos satisfaça a alma e que a vida tem inúmeras possibilidades. E eu sempre busquei a melhor possível. Mas, o incerto faz parte, e quando acreditei que tinha “estabilizado”, trabalhando como guia de trekking e de montanha, veio mais uma vez o furacão da mudança e fez mudar meus planos novamente.

Questões mais sutis que sempre vem com uma mudança são mais difíceis de se ver. Assim, somente depois da escalada do Cho Oyu (que teve um enorme impacto na minha vida) é que os rumos começaram a ficar mais claros. Há muitos anos atrás tive uma idéia de trabalhar com educação ao ar livre e de repente esse projeto voltou à minha mente. Em 2008, quando comecei a pensar nisso, não sabia como o projeto poderia sair do papel e virar algo concreto. Creio de precisei de todos esses anos e todas essas vivências trabalhando como guia nas montanhas para que o quebra cabeça se encaixasse e fizesse sentido.
Procurei saber mais sobre educação ao ar livre e pessoas, do nada, apareciam para me dar essas informações. Acabei sabendo de um curso da Outward Bound Brasil, o FEAL (Fundamentos de Educação ao Ar Livre) e decidi que iria fazê-lo. E assim foi. No dia 15 de julho, iniciei mais uma jornada onde não sabia bem o que iria acontecer.

Logo de cara conheci o Emerson, que me deu carona de São Paulo até Itanhandu, o ponto de encontro. Depois de 5 minutos de conversa deu pra perceber que tínhamos várias coisas em comum, mas principalmente gostar da vida ao ar livre... fora a engenharia... rs. Essa sensação aconteceu com todos os participantes... todos nós tínhamos esse “algo” em comum. Me senti novamente em casa.
O curso tinha o formato de expedição. Seriam 15 dias de travessia na Serra da Mantiqueira, onde iríamos carregar tudo (tivemos apenas um reabastecimento de comida). Éramos 8 alunos e 3 instrutores. Eu sabia que a parte física não seria grande problema, já que estou acostumada a carregar peso, andar muito e acampar. E assim foi...
Mas o que eu não esperava eram as mudanças internas. 

Eu estava como aluna, e não como guia. Eu não tinha controle ou decisão sobre várias questões que normalmente tenho, nas expedições que organizo. Todos tinham que trabalhar em conjunto, uma verdadeira equipe no sentido mais profundo dessa palavra. E cada um de nós teve que lidar com pessoas diferentes, com lideranças diferentes. E tudo de maneira democrática. Foi um exercício enorme de flexibilização, tolerância, de aceitação das diferenças, de empatia e compaixão. Mas tudo isso não aconteceu de um momento para outro... Foi acontecendo, ao longo dos dias e das roubadas.

Logo no começo aprendemos sobre orientação e navegação. No começo os instrutores nos acompanhavam mais de perto. Mas eis que no quarto dia, uma série de erros na navegação fez com que nos perdêssemos. Sabíamos que estávamos no rumo certo, mas... cadê a trilha???? Estava escurecendo, esfriando. O stress aumentando... alguns cansados, outros nem tanto. Cada um tinha uma opinião, às vezes todos queriam falar ao mesmo tempo. Alternamos a frente, tentamos varar mato. 

E nada. Pior, os instrutores estavam lá juntos na roubada e não davam nenhuma dica de onde estava a trilha! Até esse dia, eu estava naquela
“o que estou fazendo aqui”, pois essa organização do “tudo pelo coletivo” estava me deixando maluca. Estava considerando seriamente ir embora quando o carro do reabastecimento chegasse. Mas funciono bem sob pressão... e esse dia do “perdidos na selva” foi fundamental para que eu ficasse.
Conseguimos sair da roubada quando percebemos que nem sempre temos que seguir exatamente um azimute... às vezes, seguir pela direção predominante da trilha é melhor. Ainda mais a noite, sem referências. Às vezes é preciso inventar... abrimos um leque de cinco pessoas, num campo aberto, para ver se achávamos a trilha. 

Às vezes é preciso ter alguém tomando decisões de forma autocrática e mais “mandona”, e às vezes também é preciso ouvir os outros. Somando tudo isso conseguimos chegar numa estradinha, que não conseguimos a princípio identificar. Mas a Olívia se ligou, e finalmente sabíamos exatamente onde estávamos. Às 9:30 h da noite chegamos. Alívio misturado com cansaço... montamos acampamento e nossos instrutores Helder, Fabi e Moaci fizeram nosso jantar nesse dia. Apesar de simples, foi um banquete! Me lembro do sopão com purê de batata para ficar mais grossinho e do chocolate quente com um pouco de curau em pó. Só quem passa por perrengues vai me entender... rs.
No dia seguinte eu estava exausta, mentalmente. Precisava ficar sozinha. E fiquei. Deixei minha mente processar os acontecimentos... e percebi o quanto eu estava sendo dura e inflexível ao longo de todos os dias. O quanto eu estava me isolando e não me doando ao grupo, como deveria ser. Era meu dia de dar aula (cada um deu uma aula, assunto a escolher) e dei uma aula de Yoga. Foi quando consegui me conectar com o lugar e com cada um. Decidi ficar, definitivamente, e sair do meu modus operandi costumeiro. Dei o passo para além da minha zona de conforto comportamental. 
A partir desse ponto, abri minha mente para todos os acontecimentos e experiências. Pude aceitar de coração todas as vezes que o Rodrigo falava em “compartilhar” (no começo eu não entendia, para que compartilhar tanto???), aceitar as diferenças de organização e decisões (Thais, Olívia e Larissa), as diferentes possibilidades e idéias originais (Tomás), o bom humor logo de manhã (Bianca) e estreitar mais a amizade com quem tive afinidade (Emerson). Pude também entender o papel de educador, tão diferente de guia e de professor.
Voltar de uma expedição sempre é difícil. 


Ter que encarar a realidade, não ter os amigos da montanha por perto e entrar nessa vida moderna complicada é um esforço. Voltei diferente, com certeza. Sinto que deixei para trás uma armadura que me mantinha afastada das pessoas. Me sinto mais paciente e compassiva, e espero que mais flexível e tolerante. Senti na pele o que é uma atividade experiencial, e rebobinando a fita de todas as minhas experiências na montanha consegui extrair delas muito mais aprendizados, e mais profundos. Mas sei que ainda há muito mais a aprender...
Mais uma vez mudei. E resolvi ficar em Botucatu, minha terrinha, para trabalhar com educação ao ar livre com adolescentes. Voltei com um programa pronto na minha cabeça. Voltei com mais certeza no meu caminho... e que seja como educadora.
Agradeço de coração à OBB, por compartilhar de sua filosofia com todos aqueles que tem sede de aprendizados. Agradeço aos instrutores Helder, Fabi e Moaci S2 pelos ensinamentos e paciência. E a cada um dos novos “melhores amigos de infância” que tive o prazer de conhecer, de compartilhar essa experiência. Vocês me ajudaram a crescer.