sexta-feira, 20 de março de 2020

Visões de montanhista


Os tempos estão conturbados, como sabemos e sentimos. Ninguém sabe ao certo o que vai acontecer, é difícil fazer qualquer tipo de previsão. A única certeza é que seremos / estaremos diferentes daqui pra frente. Na forma de pensar e de interagir com outros seres e com nosso planeta.

Em meio a uma tempestade na Serra Fina.
Foto: Carol Teramoto
De meu olhar – limitado – vejo que as pessoas das cidades grandes estão sofrendo mais por essa situação do vírus. Percebo as pessoas mais perdidas, mais angustiadas por ter que ficar em casa, sem saber muito como preencher o tempo, algumas preocupadas em estocar comida e outros itens, mais estressadas e com medo. Nas cidades menores, vejo as pessoas mais relax. Creio que o ritmo de vida no interior seja mais lento e as pessoas, naturalmente, ficam mais em casa. Assim, todos estão mais habituados a isso e ficar em casa “sem fazer nada” não é um problema. Estou generalizando, claro... Tem todo tipo de pessoa em todos os lugares...

Dia desses estávamos, eu e meu companheiro Vinícius, conversando sobre como estávamos nos sentindo sobre a situação como um todo. E as respostas foram parecidas: estamos bem e tranquilos, sem medo. Sim, estamos cumprindo o que precisa ser feito com todo respeito, bom senso, ética e compaixão – algo muito precioso daqui para frente. Começamos a pensar o por quê de outras pessoas estarem um tanto angustiadas e desequilibradas e o que nossa vida de montanhistas pode ter influenciado nisso tudo, quais lições aprendemos e foram incorporadas.

A mãe Terra ensina, sempre. Quem está mais exposto à Natureza tem esse privilégio de aprendizado. É um aprendizado vivencial, experiencial... Precisa de um pouco de teoria sim, mas ela é logo colocada em prática. Tudo que se aprende na teoria faz sentido e é utilizado. Um tanto diferente das escolas convencionais, que se tem muita informação que não vai ser usada na prática. E ainda, teorias que poderiam ser colocadas em práticas não o são. Assim, tudo fica vago e sem propósito.

Na montanha, contudo, é diferente. Lá, quando tudo está bem – clima bom, comida suficiente, todos fisicamente bem – podemos fazer o planejado, seja caminhar em direção à montanha que vamos escalar ou começar a escalada propriamente dita. Ou, se estamos no dia de descanso, vamos relaxar no sol, comer bem, conversar com os companheiros, dormir ou fazer o que quisermos – sem peso na consciência. Na tempestade, por outro lado, as coisas são diferentes. Se somos surpreendidos por ela enquanto caminhamos ou escalamos, vamos agilizar para buscar um lugar abrigado. Vamos montar a barraca rápida e eficientemente. Vamos buscar água e encher todas as garrafas que tivermos. Vamos nos abrigar. Cada um vai cuidar de si, para não se machucar ou ficar doente. Ao mesmo tempo, ficamos de olho nos companheiros, para ver como estão e se precisam de nós. Vamos ficar na barraca, cozinhando, conversando, descansando. E vamos esperar, da melhor forma, a tempestade passar. Ela vai passar, só não sabemos quando. Às vezes é preciso racionar a comida. É preciso sair da barraca às vezes, para pegar água, lavar louça e fazer o número um e dois. E beleza! Fazemos isso de forma segura, eficiente, e voltamos em segurança. Não entramos em pânico, pois isso só atrapalha nossa visão do que está acontecendo e pode também atrapalhar as emoções dos companheiros. É preciso ter a visão objetiva do que está acontecendo: o que, na realidade, é perigoso? O que está, de fato, pondo em risco minha vida? Saber identificar o que é viagem da minha cabeça e o que é real é extremamente importante, pois muitas vezes o medo é apenas uma criação da minha ansiedade e insegurança.

Muitas vezes me perguntam: mas não é perigoso escalar uma montanha? Sim, é, e normalmente estou ciente do risco e vou até onde posso lidar com ele. E morar na cidade, não é arriscado? Temos uma visão de que o que é “normal” é seguro. Pegar o carro todo dia e ir trabalhar, se expondo ao trânsito é normal. Ficar dentro de um escritório fechado, trabalhando sem parar sob um altíssimo nível de stress, é normal. Ter a cabeça cheia de preocupações, o corpo sedentário, se alimentar e dormir mal por conta de stress é normal. E as pessoas, de forma geral, nem se questionam com relação a essas questões pois, se é “normal”, tudo mundo faz e deve ser seguro.

Se observamos melhor, essa é uma grande ilusão, que as filosofias orientais e outros pensadores ocidentais já vêm chamando a nossa atenção há tempos. É a ilusão de que vou entrar no carro e nada vai acontecer no trajeto – mas quem garante isso? É achar que vou continuar nesse ritmo de trabalho e stress, sem nenhuma consequência para meu corpo e minhas emoções. É acreditar que trabalhar muito e não ter tempo para mim e para minha família está ok. Acreditar que tenho que trabalhar muito, para ganhar muito, para comprar coisas que não são importantes... Pare e reflita, antes de julgar o que escrevi.

Sinto que a quarentena que estamos vivenciando está, justamente, nos fazendo refletir e perceber o que é realmente importante. Principalmente nas cidades maiores, as pessoas estão tendo que parar ou reduzir o ritmo de vida.

Podemos lidar de duas formas com essa situação: enxergar as coisas de forma pessimista ou otimista. Na montanha, o limiar entre o risco e a segurança é muito mais próximo de cada um dos escaladores. A tendência é ter uma visão otimista, pois ninguém quer morrer na escalada. Por outro lado, é um otimismo responsável. Comer toda a comida no primeiro dia na barraca, debaixo de tempestade, acreditando que o Papai Noel vai providenciar mais comida no dia seguinte, é irresponsabilidade, é fugir da realidade. Querer subir a montanha debaixo de uma tormenta, achando que os deuses vão me proteger, é irreal. Assim, tenho que manter meu otimismo dentro da realidade, sem viajar. E tenho que fazer minha parte para que as coisas continuem funcionando na minha barraca e junto com meus parceiros de escalada.

Assim, mantenham-se Presentes, atentos ao que está acontecendo na realidade. Cuidado para não cair no medo... mas, se cair, procure ajuda e tente enxergar, de forma objetiva, qual é o perigo real. Se houver um perigo REAL, faça o que é preciso para resolver a questão. Se não houver um perigo real, procure relaxar e entender o que fez esse medo crescer dentro de você e busque ajuda. Existem muitas pessoas se dispondo a ajudar: terapeutas se oferecendo para fazer atendimentos online, amigos abertos para uma conversa, aulas de yoga e meditação online. Busque o que faz sentido para você. E busque o otimismo responsável, ético, compassivo. Faça sua parte. Medite ou reze, emanando energias positivas para todos.

Sempre estivemos no mesmo barco, neste planeta chamado Terra.

Namaste!

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